sexta-feira, 13 de dezembro de 2013



DESABAFO


Não me irrita ver coisas minhas copiadas e juro pela alma do meu pai que não fico nem um pouco abalado quando algo que fiz não me rendeu nada, mas deixou alguém em situação confortável – pelo menos por algum tempo – copiando descaradamente algo que eu originalmente criei. Sim, é isso mesmo. Eu sou especialista em dar dinheiro pruzôto.
  
Tenho mais de 200 livros de informática publicados e isso nunca me rendeu nada além de dinheiro suficiente para pagar as contas de cada mês em que cada bendito livro foi lançado. E acredite, não estou reclamando, apenas comentando para criar a base do que vou colocar logo mais embaixo.


Uma certa editora me prometeu pagar royalties sobre o preço de capa de algumas publicações de acordo com uma porcentagem – ínfima é claro – e para provar a honra de seus compromissos, se prontificou a enviar “relatórios semestrais de vendas” onde haveria “discriminação de vendas por unidade” e os “locais onde as mesmas foram executadas, bem como todos os valores de preços, transportes e tributações”.


No período de 1998 a 2010 recebi o tal relatório semestral apenas uma vez. Não reclamei. Sim. “mea culpa”.
  
Então vejo uma porção de gente “escrevendo apostilas” e até mesmo livros com títulos pomposos e formatos interessantes como, por exemplo, “pacotes completos para o aprendizado da informática” com todo o meu material sem tirar uma vírgula sequer. Apenas apagam o “Eduardo Moraz”. Eu sou bobinho. Me sinto orgulhoso. Mesmo se não tiver meu nome. Dinheiro ?!? Nem comento...

 
Cansei de fazer vinheta para estações de rádio de diferentes cidades e não ser pago. Também cansei de fazer vinheta para estações de rádio, não ser pago, e a tal vinheta ser usada por outra estação de rádio. Aliás, bem curioso isso. Nunca entendi o processo mas... quem se importa?!?


Cansei também de ter realizado trabalhos de soundesigning para uso em comercial de TV e nunca ter recebido um centavo sequer por isso. Teve problema não. O produto não prestava e era melhor não queimar o filme.
  
Acredite. Nada disso me abala.


PORÉM; (sempre temos um “porém”, NÉ!?!) me abala um bocado ver a utilização de material original, de minha autoria, ser “reciclado” sem minha permissão em benefício do nefasto governo do estado. Admira-me um bocado a tal pseudo agência de publicidade não ter o mínimo de verve criativa para bolar algo em que – ironicamente – na época não teve qualquer atenção. É engraçado, estão revirando as latas de lixo para aproveitar coisa que eu pensava não existir mais... É bem a cara do lugar... um monte de cães raivosos, fedidos e sujos revirando as latas de lixo para assegurarem a ração do mês. Não à base de lagosta, faisão e champagne. Não possuem refinamento intelectual e cultural para isso. É à base de arroz branco, pequi, cerveja nacional guariroba e maconha mesmo.


Trata-se de uma técnica interessante e funciona assim: “Nada do que você fizer presta. Mas, deixa guardado aí”. Passa-se o tempo, e então o que você fez é usado, mas os louros não vão para você. Vão para... “outra pessoa”, e quando se fala em “louros”, não estou falando apenas de dinheiro, e sim da mostra de que sua capacidade de criação pode ser muito bem usada quando bem canalizada.
  
Mas é mais fácil roubar o que você faz. É mais prático e bem mais conveniente.


Dinheiro?!? Não chefe. Não se trata única e exclusivamente de dinheiro, assim como elucidei nos 7 primeiros parágrafos. Trata-se – pasme – de ideologia. Acredite ela ainda existe nas pessoas honestas e eu sou uma delas. Infelizmente.
  
Sou uma puta barata, chefe. Mas como toda puta eu sou “complicada”. Vou explicar o motivo:


Quer os meus serviços?!? Você só precisa de duas coisas. Dinheiro e ideologia. E então você pode pensar... “Pô... assim fica difícil!”
  
Não fica não, chefe. Você só precisa de MUITO POUCO dinheiro. Mas vai precisar sim, de muita ideologia. Quando as coisas são assim, eu funciono, chefe. E modéstia à parte, funciono muito bem.


É impreterivelmente crucial dizer sobre ser impossível citar a famosa frase “dessa água não beberei” em determinadas circunstâncias. Por isso, não posso dizer que jamais voltarei a trabalhar com publicidade. Mas há uma coisa que posso sim, dizer com toda convicção do mundo: prefiro passar fome a fazer o que quer que seja para o maldito governo e qualquer um de seus políticos, puxa-sacos, ou qualquer outro verme relacionado. Mesmo porque fome eu não passo. Há capim demais por aí afora e burros como eu podem aproveita-lo até se fartar.
  
Foi dureza ver algo que fiz e que jamais deveria ter aparecido beneficiando o sistema que mais tenho nojo, asco, raiva, ódio e toda sorte das mais negativas sensações humanas. Para a maldita pseudo agência de publicidade que “criou” e veiculou isso, eu realmente desejo que continuem podendo bancar a sua cerveja, a sua guariroba e sua maconha. Que assim seja.


Para o governo do estado, não importa quem tenha feito. Não importa quem tenha criado e se a pessoa que deveria ter recebido algo de fato teve seu quinhão. Isso sempre foi assim, é desse jeito, jamais mudará e, além de meu humilde desabafo, só posso fazer mais uma coisa, como tenho feito durante toda a minha existência:
  
Me conformar.

NÉ!?!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Santa Maria: Quando Nossa Cultura Provoca Tragédias

Algumas pessoas que conheço torcem o nariz quando digo sobre uma porção de coisas acontecerem pelo fato de que somos um pseudo país de terceiro mundo. Do meu lado, eu torço o nariz quando simplesmente não entendo o motivo dessas mesmas pessoas defenderem coisas chamadas por elas mesmas de “valores nacionais”. Na verdade, quando ouço as tais duas palavras, imediatamente me lembro de uma das piores invenções dos que já estiverem no poder desse lugar. Me lembro da maldita “Reserva de Mercado”; mas isso é outra estória que já ficou na história. Pelo menos, de certa forma.

A pergunta, claro, é simples: O que tem a ver a nossa situação no “ranking” mundial com a tragédia em Santa Maria? A resposta curta é simples também: Tudo. A resposta longa, no entanto, é um pouco mais intrincada, apesar de ser facílima de entender.

Pare para pensar um instante e recorde-se dos lugares fechados onde você já foi. Não importa se você gosta de rock, jazz, sertanejo, gospel... seja lá o que for, você já esteve - inúmeras vezes - em lugares com péssimas condições de segurança. Talvez nem tenha notado, mas igrejas, bares, clubes, salões de festas, centros de convenções, inferninhos, infernões... a lista é grande. Podemos também considerar lugares abertos. Mas, não nos desviemos demais do contexto.

Continuemos. Vamos lá. Faça uma forcinha novamente e pergunte-se em quantos desses lugares você já viu sprinklers, saídas de emergência com barras anti-pânico, sistemas de luzes de emergência, extintores suficientes... de quebra, questione-se também o seguinte: em quantas ocasiões você já esteve em locais com a mais absoluta certeza de que a quantidade de gente era muito superior à capacidade do lugar? Talvez não tenha pensado um segundo sequer - e isso não é problema algum - em segurança, afinal o nível normal da paranóia de uma pessoa não paranóica, não permite a realização de indagações profundas sobre seja lá que aspecto for, principalmente quando se sai para se divertir; (alguns poucos exemplos de exceções são dentro de veículos e quando se está com pessoas que inspiram cuidados). Mas com a mais absoluta certeza sentiu uma fadiga de lascar e também realizou sobre alguma coisa estar bem errada ao reparar que, apesar dos não sei quantos aparelhos de ar condicionado, o calor no lugar estava, literalmente, típico dos infernos.

Não há exceções no pseudo país onde moramos. Uma assombrosa quantidade de lugares não apresenta a menor segurança, seja em Goiânia, Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, Oiapoque, Chuí, Santa Maria... Em todos esses lugares e, para falar a verdade, em todo território nacional, temos poucos estabelecimentos preparados para evacuações de emergência caso algum sinistro ocorra. Até parece que ninguém sabe disso...

Podemos então concluir que a “culpa” da coisa toda está no fato dos lugares não oferecerem segurança, certo? Eu realmente gostaria que fosse tão simples...

Antes de discutirmos sobre “culpa”, vamos falar um pouco de nossa hipocrisia. Ela muitas vezes é elemento de fator preponderante em qualquer coisa que se diga, faça e se imagine, principalmente, quando estamos falando de qualquer coisa que não seja sobre nós mesmos. É também inevitável. Como é que iríamos falar de segurança ou a falta de, em casas noturnas se algo assim não tivesse ocorrido? Como é que iríamos comentar sobre aspectos de relações humanas entre pais e filhos se não tivéssemos presenciado pela mídia um caso no qual supostamente um casal jogou a própria filha janela abaixo? Sim, estou falando do caso Nardoni, aquele caso que a (pseudo) nação toda já esqueceu, lembra?  Como é que discutiríamos a segurança em vôos espaciais, se os ônibus espaciais nos Estados Unidos não tivessem se arrebentado em terríveis explosões? Como falaríamos de segurança pública se um garoto não tivesse sido arrastado por um carro por não sei quantos quilômetros e que, agora, em sua honra, tem uma rua, avenida ou sei lá o que em seu nome no Rio de Janeiro? Tudo bem que não adianta nada, mas pelo menos comenta-se. A coisa toda da hipocrisia tem de ser dividida em diferentes classificações. Por hora, digamos que existe a hipocrisia per se. A outra, por enquanto, resume-se ao tipo automático, que ocorre não por culpa de ninguém, mas devido ao fato de certas ocorrências não serem regulares; (ainda bem). Outras tantas, são mais comuns do que se imagina.

Fica ao critério de quem quiser a questão da hipocrisia sobre o caso de Santa Maria virar matéria no “Fantástico” e agora todos virarem especialistas em segurança em ambientes de uma hora para outra. Fica também ao critério de quem quiser julgar (julgamentos são automáticos, você sabe disso) se esse “posting” está 100% ligado a uma série de coisas com nomes bacanas, como não só a “hipocrisia”, mas também “oportunismo”, “sensacionalismo” e assim por diante. Também fica a critério de quem for classificar tal conteúdo não como um tratado incólume. Pouco me importa se qualquer classificação seja correta ou não. Afinal de contas, se a igreja do bispo Edir Macedo categorizou o corrido em Santa Maria como uma sentença de morte, premeditada ao comportamento daqueles que estavam ali para diversão, realizando tal estapafúrdia declaração no tal do Facebook, (sim, eles fizeram isso), então é lógico pensar sobre a libertinagem de se colocar o assunto em qualquer patamar. Como todo mundo sabe, não haverá qualquer conseqüência para quem quer que seja, assim como não haverá qualquer problema para a maldita Igreja Universal do Reino de Deus, ou sei lá como aquela desgraçada porcaria se chama. Pouco importa - infelizmente e principalmente para essa “igreja” - o sentimento de pais, parentes, amigos, namorados e conhecidos das vítimas. Tal instituição, como tantas outras, não faz a menor ideia do que pode vir a ser o conceito de respeito.

Falemos então, finalmente, de culpa. Ela também não é única e exclusiva. Está diluída em um mar de aspectos tão vasto de detalhes, os quais somos impossibilitados de reportar um por um. Ela está enraizada na cultura, no fato de sermos o que somos, no mérito de jamais termos tido autonomia suficiente a ponto de nos permitir fazer as coisas direito. Não dá. É impossível. Motivo?

Imagine-se empreendedor, futuro dono de uma casa de espetáculos, ou seja lá como queira chamar. Rapidamente - (não há muito tempo hoje em dia para planejamentos muito detalhistas) - pense no que você precisa, atendo-se ao básico do básico:

- ponto;
- funcionários;
- som/luzes;
- isolamento acústico;
- fornecedores.

Ok. Agora, pensemos em como você vai burlar a receita para pagar menos impostos. Também considere como serão os esquemas de permuta ou então de suborno ao ECAD; e também considere a possibilidade de arquitetar algo para evitar problemas caso a banda que você esteja explorando seja formada por garotos sem a carteira da ordem dos músicos. Nota fiscal? Nem pensar. Apenas em situações irremediáveis. A vigilância sanitária não é implacável. Mas há também de se considerar o montante de propina designada para os fiscais caso comecem a encher o saco por causa da sujeira da pia da cozinha. “Solopan” é caro e ácido para remover manchas também não é nada barato. Higienização do ambiente como manda o figurino? Caramba, não estamos em Miami né chefe... Que se danem os filtros de ar condicionado. Ninguém liga para isso.

Funcionários. Carteira assinada é bobagem. O esquema é freelance. Treinamentozinho meia boca aqui e ali e está ótimo. Isso vale para garçons, garçonetes, seguranças, pessoal da limpeza, todo mundo. No caso dos seguranças, o treinamento é simples: quer sair? Então paga. Simples assim. Quer sair sem pagar? Pode até sair. Mas vai direto para o hospital. Esse pessoal precisa trabalhar. Não vai ser difícil fazer um bom acordo com todos eles. Claro, não vão dar o melhor que podem, pois não vão estar recebendo o justo, mas quem se importa? Alguém liga? Afinal você não tem concorrentes na cidade onde você está abrindo seu negócio, tem? De qualquer jeito tá bom. De qualquer jeito serve. Principalmente quando não se tem opções.

Beleza! Tudo certo. Sua casa abriu e é um sucesso. Não poderia ser diferente. Você fez tudo como manda o figurino, e quando estava fazendo as negociações, ninguém te chamou de otário, pois você não gastou um centavo sequer em algo no qual alguém poderia dizer: “Você vai mesmo investir nisso? Mas você é bobo, hein”?

“Mas também não dá. Não daria para investir em mais nada. Afinal de contas, qual é a casa noturna - no geral - pelas redondezas, equipadas com trocentos extintores? Luzes de balizamento em caso de falta de energia? Fala sério... se faltou energia, então faltou. Basta segurar a galera lá dentro, sem deixar ninguém sair e fica tudo bem. É só esperar a luz voltar. A entrada é a saída e a saída é a entrada, pois assim fica bem mais fácil de manter o olho na galera. Ninguém entra e ninguém sai sem a gente ver quem é. Quanto custa a recarga de extintores grandes? 20, 30 paus? Temos 6. 30 X 6 = 180. Com 100 você deixa o camarada da fiscalização pianinho. Economizou 80 contos, afinal de contas você não é nenhum Mané. Sprinklers? Como é que é?!? SPRINKLERS? Tá louco? Meu Deus, isso aqui não vai pegar fogo não! Sprinkler pra que!!! Isso aqui não é hotel, não é condomínio, não é cinema nem aeroporto e muito menos shopping center. Sabe quanto custa um sistema desses? Nosso salão terá capacidade para 600 pessoas. Mas assim, 600 pessoas na planta né? Em dia de festa bacana, a gente vende uns mil ingressos. Tá... mil e cem, vai. Com jeitinho, cabe tranquilo. Colocamos as promoters para divulgar a festa, não vai sair caro. Arruma meia dúzia de bundudas com o cabelo escorrido por chapinha, paga uma miséria para elas e tá ótimo. Fica meio apertado, mas é melhor para o povo se enroscar geral. Afinal de contas, hoje em dia, homem com homem, mulher com mulher... tanto faz. Não tem diferença mesmo... Papo de lotação máxima não rola né chefe... vai ter quem para ficar contando quantos entraram? Vão mandar alguém aqui para isso? Nem vai né? Nem vai mesmo. Os otários da banda estão aí. Tadinhos... vão passar parte da noite trabalhando por uma merreca e justamente eles são o motivo do lugar estar cheio. Mas pelo menos estão fazendo o que gostam. Deixa eles fazerem qualquer coisa lá no palco, vai. Deixa eles. Estão se divertindo. Eles se divertem quando trabalham. Que façam o que quiserem. Deixa... Ô... seguinte... os caras lá disseram que esse fim de semana o pessoal do juizado nem vai estar na cidade. Libera a passagem do pessoal de menor. Mas se for menor de 18, tem que pagar uns 15 contos a mais, esquece não, falei?”

Não. Eu não estou dizendo que é assim e que foi assim na “Kiss” em Santa Maria. Estou dizendo que é assim em praticamente qualquer lugar. Tem que ser assim. Não há como ser diferente. E como eu disse antes, não é simples culpar, pois tudo está diluído em nossa própria cultura. A cultura terceiro mundista. A cultura merrecolandesa, que nunca consegue aprender com seus próprios erros, nem com os enganos de ninguém, quem quer que seja. Sim, a cultura do jeitinho; não tem como de deixar tal clichê para trás.

É preciso burlar, mascarar, transgredir, passar por cima, sacanear, miguelar ou seja lá o que for, para tudo funcionar. Imagine se todo lugar fechado tivesse mesmo a estrutura de emergência conforme as recomendações das leis de segurança internacionais... apenas imagine. Temos uma ideia de quanto isso ia custar? Empreendedores, dos quais você provavelmente conhece alguns, teriam grana suficiente para tocarem seus negócios se cumprissem todas as tais “exigências”, digamos assim? Empreendedores precisam e querem lucro. O que vão fazer para isso, é por conta deles. Algumas coisas são necessárias. Outras nem tanto. Balancear a equação é difícil. Alguns conseguem. Outros não. A consequência, está aí para todo mundo ver. Ver, comentar, se entristecer e lamentar.

Não estamos na América do Norte, nem na Europa, tampouco na Oceania. Você sabe onde estamos e sabe que as coisas são assim. Pronto. Sem justificativas, sem explicações. As coisas são como são. E em tais quesitos, elas não vão mudar, a não ser para pior. Evidentemente, depois dessa triste tragédia, vai haver - talvez por um pouco mais de um ano no máximo - alguma discussão sobre... “mudanças na legislação”, “intensificação na fiscalização das normas de segurança” e falácias semelhantes. Vão dar alguma trela do tipo é “necessária a presença de uma barra anti-pânico nas portas”, e não vai ser difícil encontrar uma porta com um cabo de vassoura cruzando-a de fora a fora fazendo a vez da tal barra. Claro, no início, nos meses posteriores à tragédia, vai ser tudo lindo. Multas em diversos estabelecimentos; (alguns deles vão até mesmo ser fechados); autuações, fiscais com cara de gente séria, entrevistas na TV com dizeres do tipo: “...estamos trabalhando para a segurança do público, pois é nosso dever evitarmos que tragédias como a de Santa Maria se repitam”... tudo muito bem orquestrado. Por pouco mais de 365 dias esse vai ser o aspecto mais sórdido de toda a hipocrisia em cima do assunto: as coisas vão funcionar. Muitas pessoas vão ter até “medinho” de entrarem em certos estabelecimentos, principalmente as mulheres. Depois de uma desgraça, nesse lugar, as coisas funcionam. Ainda que por tempo limitado.

Futuro: Não, as coisas não vão voltar a ser como antes. As barras anti-pânico estarão lá, porém frouxas e prontas para cair em cima do pé de alguém. As luzes de emergência também vão estar em lugar de destaque, no melhor modelo: “hey, tá vendo aqui? Temos luzes de emergência em nosso estabelecimento”, mas não vão funcionar. Provavelmente as baterias estarão bichadas. Os extintores aparentemente estarão cheios. Mas só Deus sabe se as válvulas estarão em ordem. O material do isolamento acústico do lugar vai estar correto. Apenas acima e ao lado do palco. Bem... acima só já tá bom... se for preencher todo o lugar com isso, fica caro demais. As câmeras de segurança, pelo menos essas estarão em ordem. Claro que as gravações não vão aparecer se os proprietários do lugar se sentirem acuados com a possibilidade de serem processados se alguma grande meleca acontecer, mas isso é de praxe. Aliás, tudo é de praxe. Como eu disse, é assim que é. É assim que sempre foi. E assim sempre será.

Existe, principalmente nas redes sociais; (tudo gira em torno disso hoje em dia), algumas colocações sobre a postura de quem estava numa casa noturna de shows. É mais ou menos como a comunidade esotérica. Para esse povo, se alguma coisa saiu errada na sua vida, a culpa é sua. Não importa se é uma doença, uma fatalidade, ou se um pombo passou por cima de sua cabeça e nela deixou os dejetos de sua última refeição. Para eles a culpa é sua por não ter administrado “alguma coisa” do jeito certo. A culpa é sua. Única e exclusivamente sua. O mesmo anda acontecendo sobre as vítimas de Santa Maria. Algumas “pérolas” fáceis de encontrar em poucos minutos de navegação:

“O que esses meninos estavam fazendo num lugar daqueles, tarde da  noite?”
“Se estivessem em casa ou na igreja, isso nunca teria acontecido!”
“A ideia de diversão desses jovens é tão obscena que o diabo levou suas almas.”

Pessoalmente nunca vi tamanha falta de respeito em toda a minha vida. Mais de 300 jovens morrem e os fanáticos religiosos e pessoas com o Q.I. reduzido, com a mente facilmente manipulável por vermes que se alimentam apenas de dinheiro alheio se preocupam em coloca-los como culpados pelo próprio destino. Querem, a todo custo, tentar mostrar sobre os benefícios de seguirem sua doutrina de horrores. A mensagem é clara. “Se estes jovens a seguissem, isso jamais teria acontecido...” Sinceramente, me recuso em prosseguir com qualquer consideração à tamanha nojeira...

A fachada da boate Kiss em Santa Maria, é, agora, um triste retrato. É um instantâneo do ponto em que estávamos e que ainda estamos. É um expoente do descaso, dos infinitos esquemas para passar por cima do que seja, tudo com a justificativa de que tem que ser assim, pois quando as coisas são feitas do jeito certo, trazem prejuízo e não lucro.

Em nosso pseudo país, a nossa cultura sempre foi bizarra ao ponto de hoje, podermos dizer, seguramente, que o certo é errado e o errado é o certo.

Mesmo que a consequência disso seja a morte de mais de 300 jovens durante um show em uma casa noturna. Mesmo que toda a nossa cultura seja de um patamar tão pífio, que permita que coisas assim ainda ocorram no futuro.

Meu mais profundo desejo, que de alguma forma, seja lá como for, os pais, familiares e amigos desses jovens, consigam algum conforto e alento.

Se é que isso é possível.

Meus sentimentos. Agora e sempre.

E.Moraz.
 

UPDATE: Não é só a igreja do Edir Macedo a única em tentar golpear as famílias das vítimas. Um bom exemplo do mais fino de maldade, está nas técnicas de golpistas para obter dados bancários via internet...http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/01/29/golpistas-usam-tragedia-de-santa-maria-para-roubar-dados-bancarios-via-internet.htm

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Caldas Country: Excelente Retrato da Educação Merrecolandesa.

Para quem não conhece, Caldas Novas é uma cidade do interior de Goiás. As principais atrações do lugar, são as piscinas de água quente espalhadas por hotéis de diferentes preços e categorias. Alguns indivíduos chamam o lugar de “Las Vegas Brasileira”. Bem, eu nunca fui à Las Vegas, mas posso lhe dizer uma coisa com a mais perfeita convicção dessa vida: ao invés de dizer que não tem nada a ver com a cidade original, é bom lembrar da palavra “Brasileira”; (com “B” maiúsculo) no meio da alcunha. É mais ou menos como o desenho da Liga da Justiça quando tinha o Superman bizarro, aquele todo ao contrário e que vivia em um mundo idem. Mesma coisa, ou seja, tem a ver. Só que ao contrário.

Por sua vez o Caldas Country é o Caldas Country. O nome já diz tudo. Há uma enorme possibilidade desse negócio aí não ter nada a ver com você e por isso, é bem capaz que um grande ponto de interrogação tenha se formado em sua cabeça, certo?


Bem, vamos lá. Temos a devida apresentação sobre o lugar e um pouco sobre o evento. Para uma melhor interação sobre o ocorrido e o motivo de escrever isso aqui, eu recomendo a leitura da seguinte matéria, publicada no “Diário da Manhã”, um jornal aqui de Goiás.


Link:

http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20121120&p=6


Pois é. Como diria a Sandra não sei das quantas lá do “Jornal Hoje”: - “Que deselegante, né?” Na verdade, é muito mais do que isso. É lamentável e pessoalmente, posso dizer que isso tudo me dá um profundo sentimento de tristeza.

A matéria no DM não coloca o Caldas Country explicitamente como o culpado do que aconteceu no lugar, embora as associações são óbvias. Não há como fugir delas. Se o lugar está “quieto” e de repente uma horda de gente aparece para um determinado evento, numa quantidade muito maior do que a cidade pode suportar, então naturalmente boa coisa não vai sair. Em todo caso, devemos lembrar que Caldas Novas é sim um lugar pequeno e não é, nem de longe, a primeira vez que sofre com esse tipo de ocorrência. Tudo bem, a selvageria dessa vez não tenha nenhum precedente, talvez. Mesmo assim, é insuficiente – ao menos no meu humilde ponto de vista – culpar única e exclusivamente o tal do Caldas Country.


O evento é poderoso. Sua campanha publicitária atinge em cheio seu público e ela tem a capacidade de atrai-lo tal qual bosta atrai mosca. Não é mérito das campanhas em si, visto que a maioria da população gosta desse tipo de coisa. Então, qualquer burburinho sobre o assunto já está perfeito para os organizadores consolidarem a certeza de que vão ganhar oceanos de dinheiro. E ganham. Ô como ganham. E fica a dica para eles: no próximo ano, não há nem necessidade de investir tanto em publicidade não, tá? Podem economizar nisso numa boa, apesar do rabo preso que vocês já tem com as tais agências. As moscas já conhecem o caminho direitinho e não vão deixar de ir nem que a Lua caia do céu e se espatife na Terra. Podem ter a mais absoluta certeza: deixem as agências pra lá. Elas só querem sugar grana de vocês. Chamem aquele moleque de 15 anos que mexe mais ou menos no CorelDRAW. Fica tudo certo. E muito mais barato.


Como eu ia dizendo, Caldas é um lugar pequeno. Apesar da quantidade de hotéis, pousadas e clubes, não comporta aglomerações gigantescas. Não é raro a cidade entrar em colapso durante o carnaval. É bem comum já no segundo dia de festa, faltar de tudo. A cidade fica sem combustível nos postos, sem comida nos bares, restaurantes, supermercados e mercearias. Falta água em todas as torneiras do lugar. Lógico que, se você tiver a sorte de encontrar uma garrafa de água mineral à venda; (nem só de bebidas alcoólicas vive o homem), ela custará uma pequena fortuna. Os serviços essenciais simplesmente não funcionam, e a pouca polícia que resta, recebe ordens específicas de agredir quem quer seja, a qualquer momento, com ou sem motivo, para colocar “ordem” ou por simples prazer sádico – característica inerente a tais “profissionais”.


Convenhamos: se isso tudo é comum naquele lugar, então não é de se surpreender com o que aconteceu no feriado do dia 15 de Novembro, certo? Afinal de contas, não é a primeira vez que morre gente em Caldas Novas por causa de uma festa, não é mesmo?


Esse tipo de raciocínio simplista é o resultado da “soma de todos os medos” sobre o que vem acontecendo com a nossa sociedade, mais especificamente dentro de uma certa faixa etária. Antes em Caldas Novas tínhamos bêbados vomitando nas ruas em época de grandes eventos. Também tínhamos a falta de tudo na cidade, e pessoas fazendo suas necessidades (incluindo o número dois) no meio da rua. Agora tudo sofreu um baita upgrade. Além das ocorrências “clássicas” citadas mais acima, temos também balas de armas de fogo; (ou projéteis, como a nossa amada e fofa polícia e seus sádicos integrantes gostam de chamar) voando sem destino certo, pessoas dançando em cima de carros semidestruídos, incêndios deliberados, compra, venda e consumo de drogas de todo tipo e espécie in loco na frente de qualquer um e, claro, no mais fiel estilo das Cracolândias de nossas cidades. Tudo isso, com uma naturalidade de fazer inveja a qualquer “mano” lá de um dos morros do Rio de Janeiro ou de qualquer favela de São Paulo; (sim... São Paulo e mais uma porção de cidades da Merrecolândia também tem favela para todo lado, viu bebê? Né só em morro que tem favela não, tá?).


Dá no que pensar. E não só no fato de que tudo isso é reflexo da falta de educação geral do povo. Me lembro do final dos anos 70, quando “cabeludo” era “maconheiro” e gente de péssima influência. Me lembro também das aglomerações de um monte de moleques – eu incluído – todos vestidos de camisetas pretas com estampas de bandas de rock dentro e fora de bares de quinta categoria. Me lembro do mesmo povo sentado nos bancos das praças tocando violão e “fazendo soca” depois da aula. Também me lembro de como mais de 3 indivíduos do mesmo estereótipo, quando reunidos em qualquer lugar, serem isca para qualquer policial chegar e dar um baculejo. Mas não consigo me lembrar – uma só vez sequer – de ter havido qualquer coisa minimamente parecida com o que aconteceu em Caldas Novas. O mais interessante, é que toquei e cantei por mais de 8 anos da minha vida em diferentes cidades de GO e MG, justamente para o público formado por “cabeludos” / “maconheiros” e nada, nem de longe, jamais chegou à acontecer.


Mas reafirmo... não é culpa única e exclusiva do Caldas Country. Não é culpa do excesso de gente. O principal motivo do episódio é a constante e, pelo visto, irremediável queda na educação geral do povo. É um assunto delicado, cujo o debate é saudável, porém tedioso. Necessário, porém enfadonho. Urgente, porém infrutífero.


Não é à toa que, além da matéria do Diário da Manhã, outra me chamou atenção de forma semelhante, dessa vez, publicada pela renomada(apesar do recente escândalo) BBC.


Link:


http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/11/121127_educacao_ranking_eiu_jp.shtml

Concluir o posting com a chamada de uma matéria externa é um tanto quanto estranho e nada ético, podemos assim dizer, por isso, peço minhas desculpas. No entanto, reforça um pouco as credenciais gerais necessárias para dissertar sobre as peculiaridades do assunto tratado, já que, para a maioria dos frequentadores do Caldas Country e outros eventos semelhantes, eu seria alguém – no mínimo – preconceituoso. Para outros, eu ainda seria, além de preconceituoso, pobre, invejoso e ainda por cima, biba, por supostamente “não gostá das muié”.


E é isso aí. Avante Goiás.

Avante Merrecolândia.

E.Moraz.

 
UPDATE: Eu estive em Las Vegas em 2013. Desnecessário, mas vou dizer assim mesmo: tem nada a ver com Caldas Novas. Nada, nada, nada.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Jethro Tull, Thick as a Brick 2 - O Que Houve Com Gerald Bostock?

Uma das características mais marcantes do rock progressivo foi a ideia de contar estórias em longas canções. Sempre foi uma diferenciação inteligente e muitas vezes até agressiva contra o pop e qualquer outro estilo em evidência no final dos anos 60 e início da década de 70.


Algumas bandas criaram verdadeiros personagens. Nada mais justo: se estórias poderiam ser contadas por alguém em um livro, o mesmo conceito poderia ser aplicado à música. Alguns acabaram não só encabeçando o elemento principal de vários álbuns de sucesso, mas também foram parar nas telas do cinema.


Não foi necessariamente o caso do Jethro Tull. A célebre obra “Thick as a Brick”, lançada no formato de álbum homônimo em Janeiro de 1972 nunca virou filme. Mas, ao contrário de tantos outros conceitos, está agora sendo perpetuada com a ajuda da internet. O Tull está preparando “Thick as a Brick 2”.


Vejamos primeiro alguns fatos da obra original:


O personagem: um garoto de 8 anos chamado “Gerald Bostock”, apelido “Little Milton”.


O lugar: interior da Inglaterra.


A estória: Em um concurso escolar, “Milton” consegue o primeiro lugar com um extenso poema denominado “Thick as a Brick” e instantaneamente vira celebridade. Porém, depois de uma breve análise do conteúdo do poema, é de consenso entre os juízes que o pequeno “Milton” apresenta sérios problemas psicológicos. O poema é desclassificado do concurso. A vencedora então passa a ser uma garota, chamada “Mary Whiteyard”, com o poema “He Died to Save The Little Children”, (Ele Morreu Para Salvar as Criancinhas). Algo muito mais leve e bem mais "aceitável" pela sociedade conservadora. Afinal de contas, "Thick as a Brick", além de significar "Grosso Como um Tijolo" em tradução ao pé da letra, também é uma expressão comumente utilizada para denominar um sujeito extremamente estúpido.


O álbum em seu formato original em vinil chama atenção imediatamente. Como naquela época as capas dos vinis eram grandes o suficiente para permitirem a criação de verdadeiras obras de arte, os integrantes do Tull imaginaram algo diferente: uma representação de um jornal local – na verdade, uma paródia dos tabloides – com a notícia sobre a vitória e posterior desclassificação do poema do garotinho.  E não para por aí: o “jornal” ainda apresenta demais notícias locais, previsão do tempo e possui até mesmo uma seção de classificados.


Confira algumas imagens da capa original de "Thick as a Brick":

"Front Cover" de "Thick as a Brick", com a notícia da desclassificação do poema de "Little Milton".
O obituário do jornal ficítio "St. Cleve Chronicle" inclui os nascimentos e casamentos da sociedade local.
 Notícias bizarras incluem uma coluna sobre um "Homem que conversava com animais". O crime também merece destaque: "Homem mascarado e armado assalta a agência de correios do vilarejo".
 A sociedade conservadora também se atenta aos relatos de uma freira ao voltar de sua viagem por vários cantos da europa. A proteção de animais fica por conta da "Liga Feminina dos Animais de Estimação".
Os destaques sobre a banda nas paradas norte-americanas ocupam a seção central do álbum.
Cartas de respostas de leitores do tablóide, novos planos escolares e destaque para uma união matrimonial de figuras de destaque da sociedade.
A estória de um ás da aviação britânica na Segunda Guerra Mundial e a seção de classificados.
O poema "Thick as a Brick" de "Little Milton", na íntegra: a letra da única canção de todo o álbum. Resenha do "Novo Álbum" do Tull.

















 
Testes, anúncios e erratas. O "St Cleve Chronicle", assim como toda a obra, foi de cunho fictício, embora vários fãs da banda acreditarem na possibilidade de toda a criação ter sido baseada em fatos reais.


















A última página do tablóide "St.Cleve Chronicle".




















Ah sim, claro, já ia me esquecendo... a versão nacional do álbum, assim como as capas de tantos outros LPs de várias outras bandas, foi especialmente mutilada para venda em território tupiniquim. Por aqui, o disco foi vendido em versão de capa dupla. E é isso aí...

40 anos depois, surgem as perguntas: "O que se passou com 'Little Milton'? Como ele vive?" Por enquanto, sabemos que "Gerald Bostock" ainda está vivo e nada alheio ao mundo moderno. Possui perfil no Facebook e no Twitter, e sua vida é o tema de "Thick As a Brick 2 - What Happened to Gerald Bostock?", a ser lançado em 2 de Abril pela EMI, junto com a turnê onde o líder do Tull, Ian Anderson leva a obra original na íntegra. "TAAB 2" deverá ser lançado em dois formatos: um CD com encarte de 8 páginas e em uma edição especial incluindo, além do CD, um DVD com o "making of" do álbum e entrevistas.

Para os fãs de carteirinha, é uma boa verificar as informações de Bostock em seus respectivos perfis. Embora não existam detalhes de como anda sua vida, algumas informações sobre a atual formação da banda, bem como o que o guitarrista original, Martin Barre anda fazendo, estão lá.

O site oficial da banda também traz um longo texto escrito por Ian Anderson sobre o novo projeto, e um trailer de TAAB 2, que você pode conferir aqui:






Aqui estão os links, respectivamente, para os perfis de Bostock no Facebook e no Twitter:


http://www.facebook.com/pages/Gerald-Bostock/305718789470676


https://twitter.com/taab2


O "St Cleve Chronicle" também ainda existe. Mas agora se chama "St Cleve.com" e sua URL é, evidentemente, http://www.stcleve.com/

Site oficial do Jethro Tull: http://www.jethrotull.com/ 

Jogada de marketing de uma banda em fim de carreira? Oportunismo de Anderson para perpetuar seus rendimentos em nome de uma obra revolucionária da época, mas não tão comentada nos dias de hoje?


Bem, de fato não importa. Deixando de lado o virtuosismo - afinal trata-se de uma grande banda - e a possibilidade da música de TAAB 2 ser nada mais do que a inserção de ornamentos em acordes de sons exaustivamente interpretados no passado, o novo álbum trará um certo frescor a uma forma de perpetuação de uma estória concebida quando não se tinha ideia de como seria o mundo nos dias de hoje, com computadores e a internet ditando as regras da sociedade. Pode até ser algo requentado. Mas com a mais absoluta certeza apresentará uma qualidade superior em comparação com a maioria do que rola por aí hoje em dia. 


Especula-se sobre a possibilidade deste ser o último trabalho do Tull. Se assim for, Ian Anderson e sua trupe - não importando quem faça parte do álbum e da turnê - estarão fechando um ciclo de trabalho executado maravilhosamente, com chave de ouro.


No entanto, espero, de coração, de que seja apenas o começo de uma nova fase. Os caras ainda estão vivos, estão bem e ainda tem muito para mostrar.


E.Moraz.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Então Você Diz: "Sou Mais Inteligente e Educado Que a Maioria". Triste Fato: Você Está Certo

É apenas mais um dia. Você acorda, faz sua higiene, ocasionalmente toma o seu café da manhã e vai para o trabalho. Seja lá por onde for o seu trajeto e o método de transporte usado para o cumprimento de seu dever diário, todos os infortúnios protagonistas os quais causam as possíveis reflexões do título acima começam a pipocar na sua cabeça. Fatos conhecidos e lamentáveis.

Vejamos alguns deles:

No trânsito, a maioria das pessoas não respeita absolutamente nada. Você até tenta fazer as coisas do jeito certo, mas às vezes é impossível.

Situação bem comum: dependendo da cidade onde você está, ao tentar parar antes da faixa de pedestres, você corre o risco de sofrer uma colisão na traseira do seu carro. Em Goiânia, por exemplo, você tem de pensar rápido - muito rápido - e escolher entre 3 opções distintas:

1 - Você para antes da faixa, deixa o pedestre passar e em frações de segundo, pensando consigo mesmo, pede a Deus ou a seja lá quem for, para que a parte de trás de seu carro não seja alvejada durante o caminho do transeunte. Também pensa, numa velocidade indescritível, na possibilidade de que, se conseguir parar devidamente antes da faixa, uma possível colisão poderá arremessar seu carro contra o pobre pedestre durante sua aventura em atravessar a via.

2 - Você decide não parar antes da faixa e, evidentemente, se arrisca em cometer um atropelamento. Não haverá colisão traseira no seu carro, mas poderá matar ou aleijar alguém. Se o pedestre for esperto, ele vai continuar na posição dele e só voltará a tentar atravessar quando não tiver nenhum outro carro vindo em direção à faixa. Você conta com esse raciocínio por parte do transeunte. O problema, é que se tal linha de pensamento não ocorre...

3 - Você decide parar e então coloca a sua mão do lado de fora em uma tentativa quase desesperada e perigosa de mostrar ao motorista de trás que sim, decidiu por parar antes da faixa. Teve a grande sorte de nenhuma moto passar rente a seu membro superior esquerdo. Sua habilidade ao olhar no espelho retrovisor permitiu avaliar a possibilidade da façanha dar certo. Ao mesmo tempo, quase instintivamente, ligou o pisca-alerta em reforço na tentativa de mostrar que algo na frente de seu carro merece atenção e por consequência natural de todo o episódio, vai ter der parar o seu veículo. A esperança, é que o sujeito de trás entenda o que vai ser feito. Nesse caso, as possibilidades de alguém proferir palavras sórdidas contra a senhora sua mãe são de 99%. Mas tudo acaba bem. Você não vai se ofender com isso, vai?

Tem gente que se ofende. E, claro, coloca isso como argumento de justificativa para jamais tentar a terceira opção. Se por ventura tal manobra é executada e acaba ouvindo bobagens, estende a situação a ponto de iniciar uma confusão dos diabos. Não é segredo a ninguém até onde uma coisa dessas pode ir...

Tudo bem. Você não usa seu carro para ir ao trabalho e sim o transporte público de sua cidade. Vários são os motivos. Não é todo mundo com dinheiro suficiente para comprar um carro, não é mesmo? Há também a conveniência de não ter de enfrentar uma verdadeira cruzada para achar um estacionamento. Deixar o carro exposto enquanto se está no trabalho também tem lá seus riscos, isso sem mencionar os terríveis e intermináveis engarrafamentos. E os flanelinhas? Melhor nem chegar a pensar em sair de casa sem o soldo o qual estão acostumados a receber. Do contrário, o prejuízo pode ser maior e geralmente é. Também existem aqueles com a louvável preocupação com o meio ambiente: usam seus carros apenas quando nenhuma outra alternativa é viável. Como disse, são vários os motivos. Pena as alternativas também não serem suficientes para a resolução de todos os problemas relacionados e na verdade, em determinadas circunstâncias, as coisas podem ser até bem piores. Os "bikers" sabem muito bem disso. Bem aventurados os que podem trabalhar em casa ou podem chegar em seus devidos locais de suas jornadas laboriosas apenas com alguns passos.

Voltando a falar de Goiânia, o transporte público é uma verdadeira lástima. Nada funciona como deveria, simples assim. E em várias capitais e metrópoles regionais, o mesmo pode ser dito, com plena convicção.

Se todos os problemas inerentes à falta de educação da maioria dos indivíduos estivesem centralizados apenas nos exemplos citados, tudo estaria muito bom. Mas não ocorre desse jeito...

O call center de um banco ou instituição qualquer não te deixa em paz. Ironicamente, quando você precisa de tais serviços, não vai ser atendido como deveria. Pergunte-se: o que houve com a  lei sobre a limitação de tempo de espera pelo cliente quando este requer algum atendimento via telefone? A única lei a vir em nossa reflexão acaba sendo a famosíssima "Lei de Murphy". Essa sim, parece reger todo o planeta.

Uma seleção para determinado cargo diz entrar em contato com você em uma semana, para lhe informar sobre a necessidade ou não de seus serviços. Você espera, e espera e espera... e nenhum contato ocorre. Como ainda não foi chamado para qualquer entrevista, resolve candidatar-se em outro lugar. Caso as coisas ocorram de maneira satisfatória, uma péssima impressão será causada no departamento de RH da tentativa anterior, mesmo se tiverem ligado para você 3 meses depois.

Alguém de uma empresa deveria lhe fornecer uma informação sobre algo. Afinal, ao menos na propaganda, tal indivíduo deve ter sido treinado para isso. Mas não lhe diz absolutamente nada. Pelo menos, nada coerente com seu desejo e necessidade de saber. Você ainda acredita nas avaliações de atendimento? Na possibilidade delas providenciarem alguma melhoria no futuro? Esqueça. Nem perca seu tempo em avaliar.

Determinadas empresas lhe oferecem garantias sobre seus produtos, no entanato, sem uma verdadeira cruzada épica através das redes sociais, PROCON, e muitas vezes na justiça, o problema não é resolvido. Se for, levará um bom tempo. E você continuará esperando, como sempre.

Mas nada disso é o pior. As verdadeiras lástimas são quando constatamos a burrice e a falta de educação generalizadas em episódios comuns no cotidiano. O pior é quando há prazer em gente tacanha desrespeitar o direito do semelhante, como se fosse algo certo a fazer. É um fator de cultura já enraizado na grande maioria, de acordo com a simples "filosofia" do "malandro é malandro e mané é mané".

Coisas que já lhe aconteceram, caso contrário, ainda vão, lamentavelmente acontecer:

Ao entrar em um elevador ou em um recinto qualquer, você diz "bom dia" ou "boa tarde", ou "boa noite" e não recebe qualquer resposta. No máximo alguém vai te olhar de cima para baixo, de baixo para cima e é isso aí. 

Alguém deixa cair um objeto qualquer bem na sua frente. Você, como uma pessoa educada, faz questão de resgatar o objeto do chão e entrega-lo a seu dono. Espera-se ouvir alguma exclamação de agradecimento, mas ao invés de um simples "obrigado!", o indivíduo te fita com uma expressão incólume de superioridade, como se fosse obrigação sua ter realizado a ação de lhe entregar o que foi parar no chão. Como se não bastasse, o tal objeto é arrancado de sua mão, numa ação de grosseria inenarrável.

Pessoas e seus celulares. Essas chegam a ser até engraçadas, dependendo de nosso humor e de nossa paciência. Começam a falar alto a ponto de pensarmos: "Será mesmo necessário usar um celular? Numa altura de voz dessas, o interlocutor do diálogo é capaz de ouvir de qualquer maneira, não importa a distância". Não escolhem hora nem lugar. Tocou/vibrou? O berreiro começa. Você não tem nada a ver com aquilo e por isso é bom ficar calado e nem sequer pense em fazer cara feia. Pode dar problema.

Você reservou uma mesa em determinado estabelecimento. Ao chegar, ela já está ocupada. Leva o caso para a recepção, gerência ou qualquer outra coisa com aparente autoridade para resolução da situação. Sorte sua se tudo for resolvido a contento. Geralmente, espera-se. E espera-se muito.

Ao realizar um pedido em um restaurante, leva-se cerca de uma hora ou mais para tudo chegar. Nesse caso a situação é clássica: comida fria ou insossa e bebidas quentes. Ao chegar em casa, depois de ter reclamado in loco e ter obtido uma solução apenas parcialmente satisfatória, você envia uma mensagem para a gerência do restaurante relatando o episódio com detalhes. Afinal, não é de seu desejo algo assim acontecendo novamente, seja lá com quem for. Além do mais, é natural pensar estar prestando um favor ao lugar, principalmente quando a falta é algo fácil de ser corrigida. Surpresa: você recebe uma resposta com um pedido de desculpas e um convite formal para voltar ao estabelecimento e ser atendido sem qualquer ônus, tudo para amenizar a péssima impressão. Após aceitar o convite, na hora de se retirar do lugar, você informa todo o ocorrido - mais uma vez - e ouve algo próximo a "Desculpe, mas eu não fui informado sobre nada disso. O senhor terá de pagar a conta".

Seu vizinho de cima é uma monstruosidade no sentido de ter gerado 3 frutos diretos de um casamento e não deixa você nem sua família em paz. Não importa se é dia de semana. Não importa se é de madrugada. O barulho é intenso e sempre ocorre quando você e os seus estão tentando dormir. Você reclama com o vizinho, através de uma carta, mantendo a boa educação nas palavras. Sem resultado. Você reclama indo até seu apartamento, mantendo novamente, a boa educação. Sem resultado. Você reclama com o síndico, evidenciando o fato de ser um condômino exemplar, afinal, você nunca faz festas, paga suas taxas em dia, contribui para a coleta seletiva de lixo e nunca incomodou ninguém. Tudo dentro dos melhores padrões da boa educação. Sem resultado. Finalmente, você comunica a seu vizinho que está levando o caso para a justiça. E recebe uma ameaça de morte.

Ao parar em um posto de combustíveis você pergunta em alto e bom tom: "Vocês aceitam cartões de débito e crédito?" Recebe uma resposta positiva. Porém, para reforçar, ainda incrédulo, pergunta: "Estão passando os cartões?" Novamente recebe sinal de "joinha" do frentista. Quando o procedimento é terminado, alguém do posto grita: "Não tá passando cartão não!"

Sua equipe de trabalho está finalmente montada. Mesmo sem ser o chefe, alguém dela pergunta: "Quanto você vai ganhar? E Fulano? E Cicrano? Cicrano sabe quanto Fulano vai ganhar? Eles sabem quanto vou receber?"

Nada muito sério de fato quando coisas asssim acontecem vez ou outra. Porém o grande problema está no fato de episódios semelhantes estarem ocorrendo com uma frequência assustadora e isso, sem citar coisas bem piores. Sabemos as causas. Sabemos os motivos. E nada parece melhorar.

É bem pouco provável a possibilidade de alguém retaliar tais acontecimentos da forma como fez o personagem do filme "Falling Down" de 1993, estrelado por Michael Douglas e porcamente traduzido no Brasil como "Um Dia de Fúria". Não diria ser impossível, pois não é nada difícil, ainda mais no dias de hoje, ter a vontade de sair por aí com pequenos canhões fazendo justiça com as próprias mãos.

Difícil mesmo é não pensar na possibilidade quase certa de você de fato ser muito mais inteligente e educado que a maioria.

Por essas e outras, arrisco dizer:

Você está certo. Infelizmente.

E.Moraz.

UPDATE: Segunda-feira, 23 de Janeiro. Eu e meus colegas de trabalho fomos a uma padaria no break time da tarde. Meu chefe estava com fome. Perguntei ao rapaz que estava no comando da chapa, que tipo de sanduíche ele servia. "Pão francês com presunto e queijo ou com hamburger, presunto, queijo e ovo". Meu colega não pensou duas vezes e pediu o "modelo completo", mas perguntou se era hamburger bovino. O rapaz disse que sim. Ao sermos servidos, meu colega notou, depois da primeira dentada que o sanduíche dele estava "equipado" com hamburger de frango. Então seguiu-se o diálogo abaixo:

- "Hey... esse hamburger é de frango!"
- "É..."
- "Mas eu perguntei a você se era bovino!"
- "É... mas do outro acabou."
- "Acabou?!?"
- "É..."
- "E você não me fala nada?!?"
- "Posso tirar se você quiser"

Meu colega olhou pra mim e me perguntou:

- "Sobre o que mesmo se trata a sua última postagem em seu blog?"

E continuou comendo seu sanduíche. Sem dizer mais nada.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sou um Ser Inferior e um Bastardo Hipócrita: Eu Como Carne

Eu como carne.

Sim, eu sou um miserável hipócrita. Afago cães e gatos, acho cavalos e pôneis lindos, comento a beleza do gado roliço e vistoso nos pastos de Goiás - ainda mais agora na época das chuvas. Os campos estão verdes. A paisagem belíssima. E os animais, maravilhosos.
Mas eu como carne. Não sou apenas um hipócrita. Sou também um ser inferior.

Com a mais absoluta certeza desse mundo essa seria a opinião dos vegetarianos a meu respeito. Sem sombra de dúvidas me crucificariam ou arquiteriam algo de crueldade um pouco mais requintada.

Não, eu não vou colocar nenhuma justificativa ou qualquer elemento de defesa quanto aos meus hábitos alimentares. Reconheço minha hipocrisia e minha inferioridade, bem como meu tenebroso gosto por carne vermelha, carne branca... a cor não importa.

Porém eu tenho uma pergunta aos veganos, vegetarianos ou sei lá quais são as outras alcunhas dos seres superiores:

Com toda a minha ruindade, eu sou tão hipócrita/inferior em comparação com a enfermeira responsável por espancar um pequeno cão da raça Yorkshire até a morte?

Caso alguém ficou em uma caverna por tempo demais e não tem a menor ideia sobre o assunto, o caso é tão simples quanto triste. Uma enfermeira de 22 anos espancou o bichinho até a morte e chegou a fazer isso em frente ao próprio filho, uma criança de apenas dois anos de idade. Tudo bem. É notícia antiga certamente. Não devido ao fato de ter ocorrido e veiculado na mídia de outra era, mas devido a duas circunstâncias deveras interessantes nos dias de hoje: o que é dito/lido agora está obsoleto e gasto em apenas um segundo e a parca memória do brasileiro reforça a primeira afirmação.

Algumas referências - ainda desprovidas de detalhes sobre o caso - podem ser lidas no link a seguir. Também é possível conferir um vídeo com cenas nada bonitas de se ver. Uma certa cautela é recomendável quanto à execução do vídeo, principalmente, se crianças e pessoas mais sensíveis estiverem no recinto e isso inclui os seres superiores. Afinal, a hipocrisia em geral precisa ser mantida:


Como disse, não justifico minhas atitudes, ou a falta delas. Mas permito-me a justificar o motivo da pergunta realizada aos veganos, vegetarianos... seres superiores em geral.

Os hipócritas consumidores de carne como eu, não agridem animais gratuitamente. Em primeiro lugar, por não haver a mínima necessidade disso, e em segundo lugar, pelo fato de que alguém com o mínimo de discernimento consegue entender sobre o significado de ter um animal de estimação. Fácil de compreender: a pessoa não gosta de animais? Direito dela. É recomendável não tê-los em casa. Mais simples, impossível.
Em terceiro lugar está o fato de que, apesar de não ser nada nobre, o consumo de animais para alimentação é uma coisa. A agressão gratuita aos bichos é outra.
É, eu sei. Não há diferença, certo? Tudo bem. Para os seres superiores, o ato de sentar-se à mesa e comer carne, provavelmente é tão agressivo quanto ao que essa mulher fez.

A hipocrisia permite estender a reflexão ao ponto de acreditar sobre a atitude de ir saborear uma determinada refeição. Alguém já realizou o trabalho sujo de ter destruído a vida do animal. É tudo muito prático, conveniente e de uma acomodação assustadora. É uma hipocrisia de teor inenarrável. Mas ainda assim, ficam minhas dúvidas sobre os teores de crueldade.

Vamos ao açougue ou ao supermercado e tudo está lá, pronto para ser levado para casa. Ou então basta pedir, pagar e consumir na mesma hora, em qualquer cadeia de fast-food. Pronto. Mais uma vez o serviço sujo já foi executado. Basta aproveitar. De fato não deixa de ser uma atitude de uma crueldade terrível.

Sem sombra de dúvida os paralelos já estão quase consolidados na cabeça. Não é nada difícil imaginarmos sobre tudo ser desse jeito. É assim com as drogas, é assim com o tráfico internacional de armas, bebidas, diamantes, seja lá o que for. Alguém faz o serviço sujo pelo simples motivo de que, lá no final do fluxograma, alguém está pagando por tudo e recebendo o nefasto benefício, no auge do pódio de hipocrisia. É um sistema podre, realmente.

Convenhamos: se não existissem viciados, não haveria tráfico de drogas. Se não existissem usuários de pedras preciosas, não haveria tráfico de diamantes, se não houvessem consumidores de álcool, não haveria contrabando de bebidas. Se não houvessem políticos, máfia, países, criminosos, exércitos e sei lá mais o que, não haveriam vendas de armas, dentro ou fora da lei.

Se não houvessem os humanos, o mundo seria perfeito, talvez.

Mas, restringindo-me apenas ao foco do assunto tratado, se não houvessem os hipócritas consumidores de carne como eu, animais não seriam mortos. Faz sentido, não é mesmo? De fato faria, se a coisa toda não fosse um pouquinho mais complicada...
Imaginemos por um momento o desaparecimento, por mágica, de todos os seres inferiores do planeta como eu. Em tal hipotética situação, os seres superiores iriam vibrar. No entanto, estariam ainda bem longe da solução de seus problemas. Infelizmente.

Vejamos:
- Os rodeios são práticas de agressão gratuita aos animais, para puro entretenimento, sem qualquer benefício direto para os espectadores do evento. Mais interessante, é o fato da prática ser legalizada e considerada, às vezes, um "esporte". Os rodeios acontecem em praticamente todos os países ocidentais e na Europa, as touradas e outros eventos envolvendo a crueldade aos animais são bem conhecidas e bizarramente toleradas pelos governos.

- As brigas de galo em nosso glorioso país não são reconhecidas nem legalizadas, mas elas acontecem. E assim como rodeios, são eventos de entretenimento mórbido. Fomentam uma verdadeira indústria equivalente aos jogos de azar. Afinal de contas, apostas - muitas vezes altas - são realizadas em verdadeiros torneios de longa duração praticados em diversas cidades em vários estados diferentes.

- Os laboratórios farmacêuticos e demais centros de pesquisa utilizam animais para todo tipo de experiências possíveis e imaginárias. Recentemente, uma entidade norte-americana de proteção aos cães da raça "Beagle" resgatou alguns cães adultos, mantidos em cativeiro para experiências envolvendo o desenvolvimento de cosméticos. Cosméticos. Não remédios. Os bichinhos jamais tiveram contato com a luz do sol e suas patas nunca haviam tocado um solo natural. A dieta dos animais era constituída de alimentos repletos de substâncias condizentes a processos de metabolismo os quais poderiam facilitar a leitura de resultados a serem obtidos a partir da ingestão de substâncias especialmente projetadas para os testes. Só após longos 10 minutos, depois da equipe de resgate chegar em um parque e posicionar as gaiolas no chão, o primeiro cãozinho teve coragem suficiente para sair de seu pequeno espaço de confinamento.

- Em certos países onde a densidade demográfica é absurdamente alta e a falta de alimentos é uma realidade muito mais tenebrosa quando comparada aos lugares onde parcos programas de alimentação são empurrados goela abaixo da população; (leia-se "Fome Zero", que de zero teve justamente sua eficiência), tudo o que se move é considerado comida. Isso inclui roedores e insetos. É assim na China, na Índia, no Laos, no Vietnam e em vários países do continente africano. Nesses caso, não se trata de hipocrisia. Trata-se de necessidade mesmo. Enquanto discorro sobre o assunto sem a menor base de defesa a favor do meu ser, alguém está morrendo de fome nesse exato momento na Coréia do Norte e só Deus sabe mais onde.

Sim, sou um bastardo cruel. Não há dúvidas quanto à isso. E também não há como dizer algo sobre haver alguma justificativa quando diferentes teores de crueldade são colocados em questão. Via de regra, uma crueldade não se difere de outra. O ato de ser cruel com algo ou alguém é igual ao ato de ser cruel com vários "algos" ou "alguéns".

Não vou estender a questão ao ponto de colocar em cheque algumas práticas de comportamento de certos espécimes dos seres superiores. Apenas posso dizer sobre o quanto é estranho quando alguns veganos e vegetarianos consomem determinadas substâncias ilícitas. Alguns cheiram cocaína e outros fumam maconha, coisas que eu nunca fiz na minha vida e não tenho intenção alguma de fazer.

Mas certamente são pessoas melhores do que eu.

Não comem carne.

E.Moraz.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Você sabe qual foi a primeira música "ripada" para Mp3?

Claro que sabe. Hoje em dia a gente sabe tudo. Basta ir até o Google e pronto. Se o Google não resolver, a Wikipédia resolve. Tudo bem que o nome do ex presidente Lula ficou um bom tempo lá com a grafia errada, por um arranjo especialmente concebido pela revista VEJA para provar que a Wiki não é tão “quente” assim, mas, isso é outra estória...

Suzanne Vega é informalmente considerada a “Mamãe do Mp3” por ter sido a autora da canção em estilo a capella “Tom’s Diner”, escrita em 1981 e lançada pela primeira vez em Janeiro de 1984 na Fast Folk Musical Magazine, uma combinação de revista com um disco de vinil. Muito querida dos artistas na época, por divulgar novos talentos, a revista-disco ajudou aos artistas folk ganharem certa notoriedade de 1982 a 1997. Pelas bandas de cá, “Tom’s Diner” apareceu no primeiro vinil de estúdio da cantora, “Solitude Standing”, de 1987. 

Não conhece nada da artista? Olha que conhece!!! Se você era vivo em 1987 e já grandinho o suficiente para pedir ao seu pai um dinheirinho para comprar discos ou fitas para gravar vinis dos amigos e de vez em quando se deparava com um rádio sintonizado em alguma estação FM, você já ouviu Suzanne Vega, mesmo sem o estilo “folk” ser seu preferido. Claro, já existia CD no Brasil. Mas ainda era coisa fina e cara pra caramba. Além do mais, quando o tal hoje em dia desprezado disquinho prateado apareceu, só haviam peças de compositores clássicos. Nada de Beatles, Stones, Iron Maiden ou da própria Suzanne Vega.

Mas não foi com “Tom’s Diner” que Vega literalmente arrebentou aqui no Brasil e sim com “Luka”, uma bonita canção, parte da trilha sonora internacional da novela “Mandala” da Rede Globo. Em todo lugar onde se ia, em qualquer bar, restaurante, clube ou festinha, ouvia-se:


“My name is Luka... I live on the second floor... I live upstairs from you... Yes! I think you’ve seen me before...”.


Lembrou? Não? Então eis aqui a parte do primeiro refrão:


“...if you hear me something late at night, some kind of trouble, some kind of fight;


Just don't ask me what it was...

Just don't ask me what it was...

Just don't ask me... what it was..."

E agora? Lembrou? Bonitinha né? Mas, infelizmente, a canção conta uma estorinha triste de um garotinho que sofria a famosa e lamentável violência doméstica aonde vivia, no segundo andar de um prédio de apartamentos. É... a relidade de nossos tempos não é, como sabemos, formada por fatos novos...

O curioso de toda a estória, é que Vega não teve diretamente nada a ver com o desenvolvimento do Mp3 e é bem provável que a artista só tenha ficado sabendo de seu título como "Mamãe do Mp3" bem depois de sua canção ter sido usada nos experimentos da então nova tecnologia.


O "culpado" da façanha foi um engenheiro de áudio alemão chamado Karlheinz Brandenburg. Trabalhando para o instituto Fraunhofer, também conhecido pelo título de "sociedade" homônima, ele recorda:


"Eu estava pronto para executar os ajustes finos em meu algoritmo de compressão... em algum lugar no final do corredor, um rádio transmitia 'Tom's Diner'. Eu fiquei eletrificado. Eu sabia que seria quase impossível comprimir aquela voz a cappella tão macia".

Em seus primeiros experimentos, Brandenburg não obteve muito êxito. A voz de Vega continuava distorcida. Porém, utilizando a canção como base de esquema de aperfeiçoamento do algoritmo de compressão, o engenheiro finalmente conseguiu produzir uma versão de "Tom's Diner" com a qualidade das opções de bitrate do Mp3 como conhecemos hoje. A canção então tornou-se a primeira música a ser "ripada" para o formato de arquivo Mp3. Todos os testes envolvendo as experiências com o Mp3, envolveram a canção de Vega.

Como praticamente tudo o que é lançado, "Tom's Diner" possui várias versões diferentes. Em "Solitude Standing", o primeiro álbum de estúdio da cantora, a faixa aparece duas vezes. Uma delas é a versão utilizada por Brandenburg para seus testes de ajustes de compressão e a outra, apenas instrumental. Esta possui um "beat" totalmente diferente da versão cantada por Vega. Depois vieram os vários e inevitáveis remixes. Várias versões incluem o ajuste de tempo da versão instrumental sob a versão a cappella.


Confira a seguir o vídeo oficial de "Tom's Dinner", em sua versão original, sem a parte instrumental. Em seguida, o vídeo de "Luka", o primeiro e único "hit" da cantora verdadeiramente emplacado no Brasil e finalmente, a faixa título de seu primeiro álbum de estúdio, "Solitude Standing".

 
Suzanne Vega - Tom's Diner

Suzanne Vega - Luka
 
Suzanne Vega - Solitude Standing