quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Corrupção: Parte do DNA dos Brasileiros

Em Brasília, a marcha anticorrupção reuniu cerca de 20 mil manifestantes no dia 12, quarta-feira. Em São Paulo, é provável que o aglomerado tenha sido menor, mas a reunião deu-se pela mesma causa. Louvável. Realmente louvável.

Mas não é fácil articular sobre o assunto. Todo mundo já sabe tudo sobre os estereótipos à cerca dos políticos e das autoridades. É extremamente penoso lembrarmos dos últimos acontecimentos, não só na política, mas nas questões relevantes à segurança pública. Como todos nós sabemos, recentemente, a polícia militar do Rio de Janeiro literalmente fuzilou uma juíza de direito.

Pessoalmente, acho desnecessário ressaltar os pontos mórbidos dos intermináveis catálogos de atrocidades cometidas não apenas por aquela corporação, mas também por todos os outros mecanismos os quais possuem como ferramenta de ação, qualquer indício de poder de autoridade sobre a população. Não interessa quais são os objetivos e diretrizes. Alguma coisa sempre sai errada. Sempre. Algumas consequências, na maioria das vezes são aquelas as quais todos nós já estamos acostumados: leis absurdas, não cumprimento das leis - quando não são absurdas - e por aí vai. Em outras vezes, as ocorrências denotam sentimentos irremediáveis de terror. E é exatamente isso o que vivemos atualmente: dias de terror.

Como se não bastasse, nada disso é, de fato, o pior. Evidentemente nada do que seja colocado aqui ou em qualquer outro lugar pode se igualar ao sofrimento das pessoas vítimas da corrupção em qualquer nível, mas em uma reflexão simples, porém muitas vezes deixada de lado, não é exagero dizer sobre a corrupção se encontrar estampada no DNA do cidadão brasileiro.

Não. Não se trata de apontar culpados. É muito fácil criticar você, eu, ou quem quer que seja sobre o famosíssimo "jeitinho brasileio" e mais fácil ainda é proferir qualquer palavra sobre qualquer pessoa estar errada devido a seus atos terem alguma conexão com qualquer ação corrupta. Isso exigiria um verdadeiro e profundo tratado antropológico, diferentemente daqueles que falam, falam, continuam falando e não dizem absolutamente nada - vide aquela cópia perdida nos calhamaços de papéis da sua faculdade sobre alguns nomes famosos cultuados por seu professor de sociologia. Teria de ser uma bela e respeitosa resenha de respostas, daquelas que, como eu e você sabemos, jamais aparecerão. Desde já, não tenho intenção de culpar ninguém.

Nos resta então discorrer, apenas, o que for possível sobre alguns fatos. Assim, lá vai mais uma estória da carochinha vivenciada por este que vos digita.

Fui comprar um carro. Meu pai estava no hospital em estado grave, em outra cidade. Achei um tempo livre para realizar a compra. Na verdade ela já estava praticamente consolidada e fui até a concessionária buscá-lo. Esperava fazer isso o mais rápido possível para poder voltar para o hospital onde meu pai estava internado, há 200 Kms de distância. Infelizmente, os préstimos oferecidos pelos serviços de saúde do tal município não eram condizentes com o padrão do comércio local em referência à veículos automotores, daí, a justificativa da distância a qual nos separava.

O que era para ser uma operação simples, se complicou um bocado devido a um suposto problema com o Detran. Devido a uma "falha de sistema", o departamento de despacho de documentos da concessionária não podia me liberar os papéis necessários, aqueles que quando estão em dia garantem ao motorista o curioso fenômeno de jamais ser parado em nenhuma blitz de qualquer espécie; (isso só acontece quando são esquecidos, quando a CNH está vencida, ou o IPVA não foi pago). O tempo foi passando e nada do "sistema" voltar. Foi quando a consultora de vendas - sem qualquer maquiagem em suas palavras - disse ser possível resolver o caso com 30 reais. Essa foi a quantia necessária para o sistema voltar a funcionar.

Paguei os tais 30 reais. O tal sistema milagrosamente voltou, meus documentos foram gerados e eu saí com o carro da concessionária, após mais de uma hora de espera. Sem combustível suficiente, diga-se de passagem, para chegar até o posto, distante uns 100 metros de onde o carro saiu. Mas essa é outra estória...

Fiquei pensando... Meu Deus, eu sou um corrupto. Sou adepto do "jeitinho brasileiro", da "Lei de Gérson" ou algo similar. Após resolver o problema do combustível, dirigi os 200 Kms pensando no episódio. "Logo eu, paranóico com contas, absolutamente dentro da lei, pagador de impostos... bem... não sou tão bonzinho assim... afinal eu compro DVDs e CDs piratas e baixo toneladas de gigabytes na internet... Caramba!!!! Sou mesmo um corrupto".

Quando comentei com um amigo sobre isso, ele me disse: "Você não prejudicou ninguém. Fez o que é certo. Afinal de contas, você estava com pressa por uma causa justa e resolveu a coisa toda da melhor forma possível". Será mesmo? Durante um bom tempo fiquei pensando sobre as alternativas. O que eu poderia fazer? Exigir aos gritos que o tal "sistema" voltasse a funcionar? Desistir de pegar o carro e voltar ao hospital de ônibus? Voltar outro dia?

Mas a coisa é mais embaixo. Duvido que alguém tenha tantas reflexões quando "pequenos delitos" são cometidos. Afinal de contas, quem se importa de fato com qualquer coisa relativa à escrúpulos quando está baixando conteúdo não gratuito da internet ou comprando discos de vendedores nas portas dos bares e restaurantes? É justamente aí quando penso que as palavras do meu amigo são um tanto quanto dúbias se forem aplicadas em diferentes situações, mas com a essência comum ao caso do carro e o tal "sistema" do Detran. Porém, em outra vertente da situação, se qualquer pessoa não age conforme manda o figurino - e aqui o tal figurino é relevante ao realizar ações de acordo com o "jeitinho" - ela não passa de um mané. Se eu dissesse a alguém que jamais teria dado os 30 reais e tivesse esperado que as coisas se resolvessem do jeito "certo", eu seria, sem sombra de dúvida, tachado de mané, burro, idiota ou sei lá o que.

Não é fácil. Realmente não é fácil agir conforme manda o figurino - dessa vez, o figurino "de verdade". Fica bem difícil pensar sobre a corrupção não estar impregnada no DNA do cidadão brasileiro. No imaginário popular, é aquilo que conhecemos: "Malandro é malandro e mané e mané". Os impostos pagos por minha pessoa não garantem a permanência do meu carro em certas ruas de SP, RJ, BH ou qualquer outra megalópole decadente brasileña. Para deixá-lo lá, dependendo da boa vontade do "guardador de carros", também conhecido como "flanelinha", eu tenho de desembolsar 100 reais no mínimo. E pode crer... tem muito tempo que não vejo uma nota daquelas e nem um par de oncinhas. Quando muito, apenas um exemplar do tão belo felino. E só.

Tudo bem. Certas coisas no imaginário popular são caracterizadas realmente como "pequenos delitos", "coisa que todo mundo faz". Pagar 30 reais para obter documentos apenas para agilizar uma operação de compra, não é a mesma coisa de burlar a Receita Federal sonegando impostos ou então ver alguém deixando cair uma cédula do bolso e deixar o desavisado transeunte sem seu dinheiro após rapidamente esconder a importância com o pé e depois colocá-la no bolso, sorrateiramente. Mas ficam dúvidas. Enquanto meu pai estava internado, minha ansiedade para voltar ao hospital era grande e eu estava disposto, no momento, a fazer quase qualquer coisa para sair da concessionária o mais rápido possível. Mas é fácil imaginarmos na possibilidade de alguém agir como um verdadeiro gatuno quando as circunstâncias são "favoráveis".

Agora, invariavelmente, vem a sucessão de SEs:

SE eu estivesse sem dinheiro algum, SE tivesse de me deslocar rapidamente, SE a suposta ocorrência de alguém deixar dinheiro cair no chão de fato se consolidasse e SE minha urgência de fato urgisse, o que eu faria? Não. Eu não teria coragem de roubar o dinheiro de alguém, mesmo que a tal pessoa não tivesse nenhuma noção do que teria acontecido com seu dinheiro ao deixá-lo cair no chão. Mas não posso garantir qualquer coisa sobre o meu semelhante, em tais circunstâncias. Ah sim, sim... SE as circunstâncias fossem muito piores, aí também eu não poderia garantir nem mesmo minhas próprias atitudes.

Complexo. "Os fins justificam os meios", como já dizia Nicolau Maquiavel - personalidade a quem sua primeira alcunha coincidentemente foi também a de meu pai, já falecido. Ficam então as reflexões duvidosas do que realmente é prejudicial para a minha própria pessoa, para a coletividade, ou se minhas ações de fato não estão fazendo nenhuma maldade. Bem difícil determinar as correlações de atitudes corriqueiras com fatores prejudiciais.

Afinal de contas, quem vai de fato convencer garotos de que comprar jogos piratas de videogame é algo extremamente prejudicial para a sociedade, ou dizer aos flanelinhas que eles não são donos das ruas e não preciso pagar a eles pois já pago impostos demais?

A corrupção está no DNA dos brasileiros.
Resta saber, até onde podemos ou devemos ser corruptos. Espero eu nunca ter de chegar a extremos.

E.Moraz.

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