quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Lá Fora é Bem Melhor"

Nasci, cresci, ainda vivo e é bem capaz de ir para o túmulo sempre ouvindo a mesma coisa: "Lá fora é melhor". Geralmente o "lá fora" refere-se aos Estados Unidos, quase qualquer parte da Europa e mais raramente - aliás nem tão raro assim hoje em dia - a Austrália. Quem diz isso é quem já passeou, quem mora, quem morou e, curiosamente, quem nunca esteve em nenhum desses lugares. Pessoalmente acho um tema curioso e não consigo de fato levá-lo em consideração baseando-se apenas em minha parca experiência. Afinal de contas, eu nunca estive "lá fora" exceto uma vez. Não foi nos USA, nem na Europa, e tampouco na Oceania, mas sim por aqui por perto, no Paraguai. No entanto, justiça seja feita: o Super Nintendo foi bem baratinho, assim como o forno de microondas, o videocassete, o relógio "Casio" e o excelente "néctar de durazno" fabricado na Argentina. Só por isso a viagem foi ótima e realmente, considerando os objetivos do passeio e o fato de ser um cidadão pobre, sou obrigado a admitir: o lá fora que não foi bem o "lá fora", foi bem melhor!

Muitos anos depois de ter ido lá fora (sem as aspas), caí por acaso num blog de uma empresária do ramo de entretenimento. A tal empresária foi entrevistada por um repórter de uma dessas revistas famosas sobre negócios e segundo seus relatos, havia passado uns 3 pares de anos nos Estados Unidos. Durante esse tempo, comandou com sucesso uma casa noturna e invariavelmente foi questionada quanto à vários aspectos comparativos entre a "América" e a nossa terrinha. A empresária não poupou palavras. Desceu a lenha - de verdade - no Brasil (ou "Brazil", como queira), e completou suas considerações dizendo maravilhas sobre a disposição dos "gringos" na realização de qualquer tarefa. "Tudo sempre muito bem feito". Segundo ela, se algo não é para ser bem feito, nem sequer pensam em começar uma empreitada, por mais simples que seja. "As pessoas podem ficar chateadas comigo, mas isso aqui não tá com nada. Sempre ouvi dizer sobre o Brasil ser o país do futuro. O futuro chegou e eu pergunto: e daí?", completou a "entertainer".

Dá no que pensar. Mas não apenas devido ao fato das… bem… digamos… "evidências" proferidas pela empresária sobre lá fora ser melhor. O nó na cabeça acontece quando se ouve justamente o contrário, ainda mais quando as palavras saem das bocas de "gringos" vivendo aqui. Para quem nunca esteve por lá, fica difícil chegar a uma conclusão. Claro… só há como ter um parecer pessoal quando a experiência é realmente completa. Enquanto isso, tudo se resume à pura especulação. De qualquer forma, aqui vão algumas frases coletadas de gringos que tive o prazer de conhecer:

- "Aqui posso ser eu mesmo!", exclamou um amigo italiano.

- "Até a Coca-Cola de vocês é mais gostosa", disse meu "compadre" Gillan. Há 3 anos está no "Brazil" e não tem qualquer intenção de voltar a viver na costa-oeste dos Estados Unidos.

- "Não quero voltar à Suiça nunca mais.", disse meu amigo Jacques, um engenheiro químico cujo seus últimos dias foram muito bem aproveitados em Salvador. Sujeito divertido, prestativo e completamente apaixonado por nosso país. Que Deus o tenha.

Mas o relato mais interessante me ocorreu a partir de uma jovem de 16 anos de idade na ocasião. Em uma festa onde quase todos resolveram participar de torneios alternados do popular jogo de "truco", a moça, um tanto quanto deslocada, se surpreendeu um bocado com a gritaria dos participantes e um pouco mais quando eu decidi seguir a recomendação de uma amiga que disse: "Vai até lá falar com ela! Você fala inglês, ela vai gostar de conversar contigo!". Pensei no quanto seria bom fazer um teste para avaliar meu inglês, na ocasião, completamente macarrônico, com uma "native english speaker". Ou a gente se entendia - no bom sentido - ou então daríamos alguma boas risadas. Sem querer puxar a sardinha para meu lado, me saí bem. Ufa!

A moça morava em uma pequena cidade chamada "Yakima" nos Estados Unidos e estava aqui por intercâmbio. A família responsável por hospedá-la adquiriu uma afeição enorme pela jovem norte-americana e a recíproca foi verdadeira. A moça dizia adorar as pessoas, a forma como elas se divertiam, o fato de sempre estarem alegres e fez uma observação com belo potencial para a ignição de catalisadores de boas e longas polêmicas: "Dizem que a América é a terra da liberdade... às onze da noite a polícia pergunta a você no meio da rua o que você está fazendo... que liberdade é essa cara? O que a polícia quer comigo se não estou cometendo delito nenhum? Não entendo o motivo das pessoas serem proibidas de consumir álcool em certos lugares, como em praias por exemplo. Se alguém bêbado entrar na água e começar a se afogar, o salva-vidas entra em ação e pronto. Não é o trabalho dele? Ele não é pago para isso? Até nas piscinas dos clubes há avisos proibindo os banhistas de mergulhar! Terra da liberdade? Come on man! They don't know what freedom is!" Em tom de revolta, a moça dizia se negar em voltar para os Estados Unidos e ressaltava o sentido de liberdade ser algo muito mais brasileiro do que costuma proferir a propaganda norte-americana. "Eu agora tenho uma nova família. Ela me adotou e vou ficar aqui. Foi uma decisão que tomei e não vou voltar atrás. Não me importa se meus pais biológicos e meu irmão vão concordar com isso ou não. Eu realmente não me importo. I'm not going back to America, man! No way".

Foi minha vez de ficar surpreso. Por pura curiosidade, busquei confirmação com um dos membros da tal afetuosa e generosa família. Sem delongas, a amiga - já considerada sua irmã brasileira - então com 25 anos de idade disse: "Ela não quer voltar pra lá. Já ligou para os pais dizendo isso e foi completamente categórica. Não sabemos ao certo o que nós vamos dizer a eles, e tampouco sabemos como proceder dentro da legalidade... Tudo o que sei é que ela quer mesmo ficar com a gente. E sinceramente, nós queremos que ela fique. Se puder ser assim, vai ser bom. Pra ela e para nós. Muita gente diz que ela não é uma adulta. Mas eu acho que já está na idade de saber o que é melhor para ela".

Eu nunca soube o desfecho do impasse. Apenas tive informações sobre a vontade da moça ter gerado uma verdadeira revolução não só na residência de seus pais biológicos, mas em quase toda Yakima, na época, com pouco mais de 54 mil habitantes, segundo dados fornecidos pela Wiki.

Também continuo sem saber se "lá fora é bem melhor". É bem provável que gringo nenhum ache isso antes de sair de seu país de origem. Mas, ao que parece, alguns acabam concordando e repetindo a frase entre aspas quando voltam para suas casas depois de algum tempo no Brazil.

Em todo caso, continuo a especular.

Lá fora é bem melhor?

E.Moraz.

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