sexta-feira, 21 de outubro de 2011

McDonald's: Memórias, Lamentos e Trabalho "Escravo"

Headline da seção "Mercado" na Folha.com em 20 de Outubro de 2011:
"McDonald's é convidado a explicar denúncia de trabalho escravo".

Link para a matéria:
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/994109-mcdonalds-e-convidado-a-explicar-denuncia-de-trabalho-escravo.shtml

O que me deixou curioso foi o uso dos termos e seus prováveis significados. Vejamos: "convidado" e "escravo". Não é querendo dar uma de chato não, mas eu diria ser necessária uma definição bem legalzinha das duas palavras. Também não se trata de nenhuma consideração à cerca da gramática, pois com a maior sinceridade do mundo, se algo confeccionado por este que vos digita não tem qualquer necessidade de se prestar a cunhos profissionais, então eu quero mais é que a gramática normativa da terrível língua portuguesa vá direto para o inferno e, de quebra, que carregue todos os responsáveis pela recente inútil reforma ortográfica, incluindo seus coadjuvantes e parasitas semelhantes.

A dúvida aqui é sobre o entedimento puro e simples. Só. Afinal, um convite pode ser aceito ou não, pelo menos penso eu. E escravidão, até onde sei, é quando uma pessoa é capturada e forçada a trabalhar sem qualquer direito referente à remuneração, condições de bem-estar e todo o blá blá blá inerente. Mas, como não sou o dono da verdade e nem das coisas as quais ainda pago as respectivas e intermináveis prestações, posso estar errado.

Ou não.

Não me lembro com perfeita exatidão de como está no dicionário, mas arrisco dizer não haver qualquer menção à obrigatoriedade de ações no significado da palavra "convite" e suas ramificações. Então, fica fácil sistematizar uma primeira interpretação: o McDonald's vai dar explicações se quiser, é isso? Agora com a tal da justiça,(palavrinha triste, meu Deus), a gente recebe um convite para dar explicações e só vai se estiver com vontade? Nunca cometi delitos a ponto de ter de me explicar, mas antecipo-me em dizer sobre minha respeitosa recusa caso um dia seja interpelado através de um "convite" da mesma espécie. Entretanto, mais uma dúvida acaba de me ocorrer: será que grandes corporações são apenas convidadas a dar explicações e os manés da classe trabalhadora como eu são obrigados à comparecer perante às autoridades? Alguém me explique, por favor. Sério. De justiça eu só entendo uma coisa: ela não funciona. Não para mim, pelo menos.

O vocábulo seguinte é o elemento de maior relevância da polêmica: "escravo". Deixando um pouco a preguiça de lado dessa vez, fui até um dicionário on line apontado pelo Google e cliquei em um dos primeiros resultados na relação de links. Não sei se o tal dicionário é mesmo confiável, mas de qualquer forma está lá:

"escravo
s. m.
1. Cativo, o que vive em absoluta sujeição a outrem.
2. Súbdito de um tirano.
3. [Figurado]  Dependente; dominado por um sentimento, uma ideia.
4. Enamorado.
5. [Portugal: Trás-os-Montes]  Maltratado, mal alimentado.
ser escravo da sua palavra: cumpri-la custe o que custar".

Quanto à aplicação do verbete ao caso do McDonald's, não fiquei muito convencido não... explica-se:

1. Os funcionários da gigante dos hamburgers não vivem em absoluta sujeição a outrem. Com certeza são submetidos à verdadeiros absurdos dentro do ambiente de trabalho, mas se o saco estourar de vez, não importa a necessidade do indivíduo: ele vai mandar o "outrem" para a puta que o pariu e sem pestanejar muito. Duvido um bocado aparecer qualquer coisa na carteira de trabalho do sujeito com o poder de impedi-lo de encontrar serviço semelhante. A justiça do trabalho tem uma forma muito peculiar de considerar determinados assuntos como  "sérios de verdade". Esse, e outros realmente sérios, jamais seriam tratados com a devida consideração, seja lá qual ela possa e necessite ser; (por essas e outras, a palavra "justiça" é de uma tristeza sem par). Em essência, trata-se de pura sorte. Mas nesse caso em específico, não dá boró não. Seria um gato e rato desnecessário, o qual ninguém teria a paciência necessária para destrinchar a coisa toda como ela deve ser. Não devemos nos esquecer de onde estamos.

2. Bom, isso quase todos nós acabamos sendo. Plantam uma conversa bonitinha sobre democracia e representantes escolhidos pelo povo e não sei lá mais o que, e a mundiça engole. E engole numa boa. No final das contas, quem está por cima, está por cima e quem está por baixo, está por baixo. A submissão no caso não é comparativa à determinada posição quando se está fazendo uma das poucas coisas responsáveis por dar algum sentido à vida, mas tirania por tirania, velada ou consolidada, quase todos nós a vivemos. Alguns mais, outros menos. Infelizmente, muitos morreram e ainda vão morrer por causa dela. No momento alguns nomes famosos surgem na telha, assim, de bobeira: Adolf Hitler, Napoleão Bonaparte, Nicolae Ceausescu, Ho Chi Minh, Bush pai e Bush filho, Ernesto Geisel, João Batista de Oliveira Figueiredo e outros(as) os quais minha infeliz covardia não permite inserir no momento. Talvez outra hora. Em tempo: coloque o nome do seu chefe, aqui:____________________________________. Com certeza ele merece estar na "galeria", né não?

3. Heinrich Himmler uma vez disse: "Uma mentira dita 1000 vezes torna-se verdade". Se até a amante ou o amante de alguém acredita que sua quase outra parte ainda mantêm seu casamento porque o cônjuge está acometido de câncer ou outra enfermidade maligna e ainda há a esperança de tudo ficar de acordo com suas fantasias mais profundas, o que dizer das massivas e sistemáticas ações referentes aos cada vez mais eficazes mecanismos de propaganda? Os nobres profissionais de criação sabem muito bem como isso funciona, não é mesmo queridos colegas? E antes que eu esqueça: legal o dicionário ter colocado [Figurado] antes do significado do verbete. É um aviso para o leitor que as coisas "não são bem assim". Com o McDonald's não é diferente. A propaganda funciona, e muitíssimo bem, diga-se de passagem. A essência, é outra estória.

4. Que bonitinho!!! Um toque romântico no meio de tanta meleca...

5. Deixa esse pra lá... Não há necessidade de ofensas às nossas origens.

A conclusão parece ser óbvia, mas garanto: não é óbvia e muito menos uma conclusão de fato. Não defendo o McDonald's, de maneira alguma. Muito pelo contrário. Tenho razões de sobra para atacá-lo em todas as frentes e tais observações servirão de base para a verdadeira conclusão a qual eu a antecipo aqui e agora: O quadro de funcionários do McDonald's é formado por gente despreparada, de baixíssimo nível. Logo, a rede de restaurantes paga uma verdadeira merreca, condizente com a péssima qualidade de desempenho geral de seus funcionários. O serviço "sai". Não importa como, mas sai. E isso para a direção do McDonald's, está ótimo. Os manuais de operação e treinamento da empresa mandam os atendentes falarem bom dia, boa tarde e boa noite com um sorriso amarelo estampado na cara e só. Também mandam o atendente continuar com o maldito sorriso em caso de reclamação por parte do cliente e para a direção geral, isso é mais do que o suficiente para providenciar um "bom atendimento". Se o caixa está legal, dentro dos parâmetros estipulados. Tudo mais decorre. E nada mais importa.

Com exceção dos sorvetes eu não gosto do que é servido no MacDonald's. Mas em determinadas ocasiões a cadeia de restaurantes até poderia ser bem útil, principalmente, quando se está com muita pressa. Em tese e teoria, tudo deveria funcionar muito bem e agora chego ao ponto de colocar minhas desventuras pessoais quanto à franquia, nas vezes que eu a busquei em ocasiões as quais o fator tempo foi de total relevância. Eu concordo piamente com o fato de que muito do que está colocado a seguir, é bem difícil de acreditar. Mas não só dou a minha palavra sobre tudo ser verdade, bem como em várias ocasiões eu enviei correspondências para a direção do McDonald's, com os mesmos relatos. Alguns deles incluíam vários detalhes de relevância, como nomes de funcionários e gerentes. Eu realmente estava os dedurando. Tudo em vão, diga-se de passagem.

- Não me lembro o ano, mas foi logo quando um restaurante começou a funcionar nas proximidades de onde moro atualmente. Na época o pagamento com cartão de débido/crédito era uma modalidade relativamente rara nesse tipo de estabelecimento. Porém o McDonald's aceitava cheque. Entrei no drive-thru e fiz meu pedido. A demora foi tanta que o cliente de trás desceu de seu carro para me perguntar o que estava acontecendo. Cerca de uma hora depois eu fui atendido. O motivo da demora, foi a inexistência de uma caneta para preenchimento do cheque. A máquina que fazia isso automaticamente estava, segundo disseram, quebrada. O mais irônico, é que o cliente do carro atrás do meu tinha uma caneta...

- Em um shopping de Goiânia o meu pedido foi um "Número 2". As pessoas atrás de mim na fila eram atendidas e nada de sair meu pedido. Aproximadamente 20 minutos depois eu resolvi perguntar a uma das atendentes o motivo de todo mundo ser prontamente atendido e eu não. Então uma delas me perguntou, conforme eu previ, qual havia sido meu pedido. Mostrei o talão emitido pela caixa registradora; (ou sei lá como se chama aquilo), e disse: "Eu simplesmente pedi um Número 2!". A atendente então me perguntou: "Moço, pode ser outro sanduíche?". Pedi meu dinheiro de volta e saí do restaurante. Não estava disposto a comer outro sanduíche e tampouco esperar só Deus sabe mais quanto tempo. Fui embora. Com fome.

- Um amigo meu insistiu, apesar de meus protestos, em passar pelo drive-thru e eu caí na besteira de tentar comprar um sundae. Afinal de contas, tá no inferno, abraça o capeta, não é mesmo? Entreguei meu cartão de débito, disse que era débito, o cartão estava ativado apenas com a função débito e assim deveria ter sido: débito para o preço do sundae e fim de papo. Mas não... A moça do caixa conseguiu - não sei como - ativar a função de crédito do meu cartão, me exigiu uma senha a qual eu não sabia qual era, e ainda me apresentou um certo comprovante no qual eu deveria assinar. Levou quase 40 minutos para o impasse ser resolvido e isso, claro, atrasando os demais clientes atrás do carro onde estávamos. Não levei o meu sundae.

- Algumas pessoas que estavam comigo disseram que queriam lanchar no McDonald's, para meu desespero. Conhecendo minha falta de sorte para com o distinto estabelecimento e sem querer ser o estraga prazeres de ninguém, me limitei a entrar, sentar, assistir o desenrolar do drama de quem está na fila para conseguir seu pedido e observar com bastante atenção as atitudes dos funcionários. Um deles estava coçando o pinto com a mão esquerda e seu semblante pouco mudou ao perceber que estava sendo observado. Uma funcionária cantava a altos brados e a plenos pulmões uma música sertaneja. A cada verso da maldita canção, mais empenho a moça colocava em sua voz. O gerente, aquele vestido com o uniforme diferente, estava contando a uma pessoa - a quem acreditei ser amigo ou no mínimo, conhecido - como havia dado um murro na cara de um motorista que  "estava falando abóboras" para ele no trânsito. "Não teve jeito não meu... Desci da moto, fui lá e acertei o cara". "Você é doido, numa dessas tu leva um teco a qualquer hora". "E daí? Foda-se! Se eu tenho de levar teco, eu levo, fazer o que? Uma hora todo mundo tem que ir, velho". O empenho no volume do relato, para ressaltar a valentia do camarada, duelava com a potência da garganta da maldita cantora de música sertaneja, a qual também cuidava das fritas de alguém na ocasião. Decidi deixar tudo de lado e nem comentar o assunto com quem voltou da fila com as bandejas. Mas foi inútil. A atenção delas também foi tomada pelo o que estava acontecendo e os comentários foram inevitáveis. Clima perfeito para uma refeição...

- Ao tentar comprar um Guaraná no mesmo restaurante tempos depois, pedi sem gelo. Não veio nenhum Guaraná e o líquido, que deveria ser Guaraná, mas era outro refrigerante, estava mais repleto de icebergs do que o pólo sul. Pedi novamente um Guaraná sem gelo. O Guaraná me foi servido, mas, continuava "on the rocks". Pedi novamente um Guaraná sem gelo. Dessa vez havia sido colocado um Guaraná sem gelo, porém, diet; (a gente percebe o sabor ou a falta dele, na hora). Olhei bem para a atendente e disse: "Moça... eu apenas quero um Guaraná SEM SER DIET, e sem gelo. Eu paguei por ele. Será que é tão difícil assim me servir algo pelo qual eu paguei?" A bebida correta, na disposição e especificação solicitada, foi finalmente então colocada em minhas mãos, com o tradicional sorriso amarelo ministrado pelo treinamento de funcionários e constante no manual de operações da empresa. Por outra atendente.

- Essa foi bem recente: Numa fome do cão, ao deixar meu tio na rodoviária de Goiânia na hora do almoço, decidi comer na famosa praça de alimentação. Fui até o Habib's, mas na ocasião, não aceitava cartões. Fui até uma franquia de comida chinesa, mas também não estava aceitando cartões. Fui até um self-service, mas estava esdruxulamente caro. A moça do Giraffas me disse que havia um problema com o sistema e por isso, cartões também não podiam ser usados. Resolvi, então, ir até o famigerado McDonald's pensando: "Um big Mac não vai me matar. Vai quebrar o galho até a noite. Acho que dessa vez não vou ter problemas". Pedi por um "Número um". O atendente perguntou se o refrigerante era médio. Achei a pergunta estranha, mas assim mesmo eu disse, "é... médio", pouco me importava. Então na hora de digitar a senha do cartão de débito, constava um valor de apenas 4 reais na leitora de cartões. É sabido que um "Número um" não custa apenas 4 reais. "Acho que o valor está incorreto", disse eu, tentando evitar qualquer confusão com um valor improvável ao meu pedido. O atendente então, em tom de desafio, ladrou com raiva: "Quatro reais... é isso mesmo, são quatro reais, não é um refrigerante médio?". Foi então quando entendi: o jovem havia confundido o pedido com apenas um refrigerante médio, não faço ideia do motivo. Então, ainda com paciência eu disse: "Moço... eu pedi um número um... não é um pedido complicado". Ao mesmo tempo, a gerente - aquela fulana com o uniforme diferente do resto do bando - havia se aproximado e perguntou: "O senhor quer a promoção do Big Mac, com refrigerante e batata frita"? Fim da minha paciência. Respondi: "Não. Eu não quero mais absolutamente nada. Pode deixar. Muito obrigado". Retirei meu cartão da leitora e fui embora com fome. Pura bobagem da minha parte. Era bem provável que o sistema de cartões já estivesse funcionando nas outras franquias, mas não havia me dado conta da possibilidade naquela hora.

Eis então que comentei com um amigo minhas alguras com o tal McDonald's onde nem em casos "emergenciais" dá certo de eu conseguir comprar alguma coisa deles. Falei sobre os episódios e ele me apresentou um diagnóstico: "O McDonald's só contrata mão de obra barata. Pagam uma miséria e por isso o atendimento deles é péssimo. Não fica pensando que essas coisas só acontecem contigo não. O troço é bem mais feio do que você imagina".

"Caramba"... fiquei pensando... "mais feio que isso"?

Emprego realmente não tá fácil não chefe. Eu mesmo tenho constatado isso na pele. Mas o termo "escravo" pra mim tem outro sentido. E a julgar pela qualidade dos funcionários da tal rede, seria mais do que lógico pensar em soluções de melhoria não só do atendimento, mas também das condições de trabalho, incluindo ações para capacitação de funcionários e treinamento de verdade - princípios falsamente pregados pela empresa quando destaca, em seu site, programas de toda espécie relacionados à certificação de seus funcionários, oportunidades de primeiro emprego, etc... etc... etc... Pura balela. Tornar tudo isso uma realidade, é quase tão útopico quanto acreditar em qualquer "boa ação" por parte do governo, ou na eficácia de seus célebres programas de "desenvolvimento". Toda a polêmica vai por água abaixo quando o McDonald's aceitar o "convite" realizado pelas autoridades e levar um advogado o qual estará incumbido simplesmente de dizer que "ninguém é obrigado a trabalhar lá". Fim de papo, fica por isso mesmo, bye bye, so long, farewell.

Os comentários em prol do McDonald's na matéria da Folha.com não excedem as críticas declaradas não apenas pelo público em geral, mas também contam com depoimentos seríssimos de ex funcionários. A relevância das palavras de certos internautas é grande a ponto de me fazer seguir um conselho simples. No quadro de comentários é fácil encontrar: "Ninguém é obrigado a ir ao McDonald's. Vai quem quer".

Tem toda razão.

Eu não quero mais. De jeito nenhum.

E.Moraz.

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