quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O Culto ao Amadorismo - Revisitado

Em meu último trabalho como redator publicitário em uma agência  em Brasília, me deparei com a notícia do plágio descarado por parte de um "artista" alemão conforme relatei naqueles tempos no respectivo blog da agência e no post anterior. Na sucessão de reflexões sobre o plágio, associadas à lembrança de uma entrevista com Umberto Eco, foi iminente a formalização de um tema abstrato, nada prático, mas crucial e determinante a qualquer um com a vertente criativa em alta, ou pelo menos com a vontade - e muitas vezes necessidade - de que seja assim. Certo. O processo criativo não é nada fácil. A premissa maior de que "nada se cria, tudo se copia" é reconfortante, proporciona um comodismo extasiante e é por demais aceita em todas as vertentes daquilo que curiosamente clama pelo original. É uma bizarra contradição em termos.

Mas vamos com calma. É perfeitamente aceitável que alguém com o gosto para música sem criatividade suficiente para compor canções realize covers como tributos a seus ídolos maiores e realize citações do que está colocando, no formato explícitio do tipo: "olha, não fui eu que fiz isso não, mas se eu tivesse feito, teria ficado assim" ou "essa aqui é uma tentativa de copiar algo que eu acho bacana". Pode ser podre e completamente detestável pelos pseudo-intelectualóides de plantão. Mas é completamente honesto, principalmente, se ninguém está enchendo os bolsos devido ao trabalho genuíno - e notadamente árduo - dos outros. Se "nada se cria, tudo se copia", outro maravilhoso clichê, esse em "ingrêis" também tem seu valor: "Life is entertainment". Tudo até que dá certo quando colocado em seu devido lugar.

Só que tá difícil. Uma coisa é um mané copiar descaradamente algo pronto e lança-lo como se fosse seu, mas quando a coisa envolve artistas de renome internacional ou então grandes corporações - aliás, GIGANTESCAS corporações - é de se parar para pensar e constatar duas tristes realidades:

1 - Os profissionais de criação podem estar certos de que vão poder beber na fonte de coisa feita há não sei quantos anos atrás e que ninguém ou pouca gente vai perceber;

2 - O conforto de não ter que colocar a cabeça para funcionar, aliada ao culto ao amadorismo vai se massificar a ponto de arruinar de uma vez por todas a concepção de que as coisas boas são para todos.

Tudo bem, nunca foram. Mas vão diminuir as chances de alguém conseguir de fato criar um senso crítico no qual realmente funcione como catalisador de produções com o mínimo aceitável de qualidade.

Vamos ao motivo da preocupação. Ontem ao terminar o último posting mostrei a um amigo residindo na Austrália. Além de suas considerações e elogios - nos quais agradeço de coração - ele me mostrou uma certa fotografia da cidade de New York tirada e tratada por um amigo dele. Em seguida, me mostrou uma ilustração do jogo "Infamous". Trata-se da mesma coisa. Confesso que não pesquisei profundamente sobre a produtora do jogo e não estou certo se existem versões do game para todos os consoles. Até o momento, sei de se tratar de um jogo para o Playstation III. As modificações na imagem do jogo foram poucas, daquelas que até os principiantes no Adobe Photoshop são capazes de executar, depois de algumas horas lendo livros e adquirindo dicas com os profissionais conceituados.

A confusão está armada. De um lado, o autor da foto precisa provar que o material foi originalmente concebido por ele. Além disso, não vai ser muito fácil brigar com a produtora do jogo ou até mesmo com a Sony, responsável pelo console. Como vemos, também não é muito fácil determinar a culpa, afinal de contas, do outro lado, a gigante japonesa é responsável pelo hardware e desconheço qual o teor de participação dela na criação e desenvolvimento do software específico do título citado. O game foi criado pela produtora "Sucker Punch Productions" e sua distribuição foi iniciada nos Estados Unidos e na Europa em maio de 2009. Sua sequência foi lançada em Junho de 2011 e também desconheço se o impasse se refere ao primeiro lançamento ou à sua continuação.

Confesso também não ter me aprofundado na questão a ponto de colocar no blog o material mostrado por meu amigo com a comparação da cena vista no jogo. É uma questão delicada a qual necessito - primeiramente - as devidas autorizações de quem está completamente indignado com o episódio. Assim, por enquanto, respeitarei a privacidade das pessoas envolvidas e me comprometerei em atualizar o posting caso eu tenha sinal verde para fazê-lo.

Como se não bastasse, parece que as sucessões de casos relevantes ao assunto possuem uma tendência bizarra de trazerem à tona mais episódios lamentáveis. Ao ler uma matéria sobre Angenor de Oliveira, que teria completado 103 anos no último dia 11 de Outubro se estivesse vivo, também achei outro caso de plágio. Aos que não conhecem, Angenor de Oliveira foi o nosso querido, maravilhoso e injustiçado Cartola, o homem por trás da poesia musicalizada, com o poder de conseguir pincelar de alegria suas canções, mesmo quando sua fonte de inspiração eram os prólogos de terríveis realidades sociais facílimas de serem "contempladas" a partir de quase qualquer janela de quase qualquer apartamento no Rio de Janeiro. Olhar algo bonito e escrever sobre ele com belas palavras é uma habilidade relativamente fácil de ser desenvolvida por qualquer mero mortal. Tirar verdadeiros tratados sobre a beleza a partir da desgraça coletiva e do inferno causado pelo caos social, não é para qualquer um. Mesmo. 

Impossível não citar alguma coisa de Cartola. Angenor de Oliveira só estudou até o quarto ano primário. Foi ajudante de pedreiro, lavador de carros e mesmo nunca sem ter estudado uma linha de literatura, foi capaz de escrever versos belíssimos, numa época em que a poesia na música ainda chegava a encantar as pessoas:

"Queixo-me às rosas... mas que bobagem!
As rosas não falam...
Simplesmente as rosas exalam...
O perfume que roubam de ti!!!"

Não vou me arriscar a colocar qualquer coisa referente ao que se "cria" hoje em dia a partir dos morros e favelas do Rio de Janeiro a título de comparação, mas isso não é devido a uma tentativa de minha parte de parecer erudito ou conhecedor da bela música brasileira de outrora e sim, por não ter a mínima noção de qualquer coisa relacionada aos âmbitos atuais. Graças à Deus.

Eis que então, o pobre e riquíssimo Angenor também foi plagiado. Não devido às inúmeras e maravilhosas intepretações de suas canções nas vozes de artistas consagrados de nossa terra. Mas, o mesmo país onde ocorreu o lançamento de um de seus discos - o qual nunca foi de fato lançado oficialmente no Brasil - foi responsável por escrachar uma pequena parte de sua obra. Um rapper norte-americano conhecido como "Curren$y", copiou a capa do álbum "Verde que te quero rosa", lançando-o como "Verde Terrace (Spitta Andretti) Mixtape". Veja as respectivas capas no final do post.

A neta de Cartola, Nilcemar Nogueira, tomou conhecimento do plágio no mês passado, através da União Brasileira de Compositores. Como sempre, o rapper e a gravadora não se manifestaram e, também como sempre, o impasse agora está nas mãos da justiça.

Não é muito difícil teorizar sobre o que se passa na cabeça dos “criativos” desses tais artistas quando precisam realizar algo “original”. Assim como no caso do alemão Morlockk Dilemma, responsável pela cópia da arte concebida pelo ilustrador José Luís Benício para o álbum “Amar para viver ou morrer de amor” de Erasmo Carlos, a ideia certamente é a de que são coisas antigas, esquecidas, “que ninguém conhece, ninguém nunca ouviu falar”, originalmente criadas em um lugar sem qualquer projeção de valor artístico no chamado primeiro mundo. Afinal de contas, se um norte-americano nativo foi fã de Cartola ou se um alemão conhece a obra de Erasmo Carlos, no mínimo são chamados de ouvintes incomuns. Então, qual o problema? Ninguém vai falar nada.

Mas falaram. E estão falando, como podemos perceber. A falta de respeito destes sujeitos e a total falta de compromisso com a qualidade de “artistas” como se auto proclamam, denota simplesmente a verdade do clichê sobre tudo ser copiado e nada criado, mas, ao pé da letra, sem ressalvas ou espaços para justificativas à concepção e veiculação de “arte”, quer seja para o estabelecimento de conceitos, quer seja para puro entretenimento ou qual quer que seja seu objetivo. Pessoalmente, nesses casos, penso ser difícil imaginar algo diferente dos sinal de cifrão estampado na denominação do rapper norte-americano estendido ao senhor “Dilemma”, apesar de não haver referência gráfica explícita à valores monetários em seu nome.

E o que tem o culto ao amadorismo a ver com tais episódios? Tudo. Simplesmente pelo fato desses caras fazerem sucesso com gente acreditando em alguma genuinidade aplicada aos respectivos trabalhos. Samples de músicas prontas são particularmente interessantes quando coladas de maneira sistemática. Demonstram alguma criatividade pelos operadores de computador, pick-ups, laptops, sintetizadores, samplers e toda a parafernália correspondente, mesmo de forma incipiente. Aí sim cabe alguma coisa relacionada às limitações do “nada se cria, tudo se copia”. Mas é uma grande pena tais “artistas” não conseguirem delinear até onde a flexibilidade da tal premissa é de fato permissiva.

Perdoai-vos senhor Angenor. Eles não sabem, nunca souberam e jamais saberão fazer alguma coisa que realmente preste.

E.Moraz.

Capa do álbum "Verde que te quero Rosa".
Cartola, 1977.






 
         






Capa do álbum "Verde Terrace".
Curren$y, 2011.

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