quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O Culto ao Amadorismo

Na época do "boom" da internet no Brasil, em meados da década de 90, li uma entrevista muito interessante com Umberto Eco. Além de outros nobres ofícios, Eco é um escritor e filósofo de renome internacional. Não era necessário nenhum prévio conhecimento de suas obras ou qualquer leitura preparatória de um de seus ensaios para a compreensão do conteúdo da entrevista. Eco estava respondendo perguntas sobre a internet e dissertando sobre suas antevisões sobre seus impactos. Para a sorte dos leitores mais desavisados como eu, o nobre intelectual fez uso de  uma linguagem suscinta, extremamente objetiva e por vezes, divertida.

A questão mais relevante sobre as considerações de Eco, foi sobre o que é certo e o que é errado na internet, porém não se tratava de nenhum julgamento moral à cerca de conteúdos pornográficos, baixarias, nada disso. Num raciocínio simplificado, quando o repórter fez menções aos benefícios da rede, o intelectual foi precavido e expôs seu pensamento de forma bem prática: imagine um garoto sem qualquer conhecimento sobre um determinado assunto a procura de referências em sites de busca. Certamente vai se deparar com centenas, milhares e talvez até mesmo milhões de resultados. Em primeira impressão, ótimo. Mas o que realmente está correto nas tópicos? Por onde começar? Quais são realmente as referências de cunho didático as quais podem ser verdadeiramente aproveitadas para um trabalho escolar ou qualquer outra modalidade de uma pesquisa séria? Há tempo suficiente para estabelecer comparações entre as diversas opções de respostas para uma racionalização do que pode ser realmente aproveitado? Geralmente, não.

É conveniente ressaltar a época da entrevista. Ainda não havia a Wikipedia, não havia o YouTube, não havia praticamente nada da web tal como a conhecemos hoje.

O tempo passou e as referências cresceram. Sobre tudo. Sobre todos. E também surgiu o amadorismo, a coisa de pessoas colocaram o que quiserem, quando quiserem, da forma que desejarem. Maravilha. Mas é justamente aí onde às vezes mora o perigo.

Exemplo fácil de entender: quando a Wikipedia surgiu, qualquer um poderia postar conteúdos e em essência ainda é assim, embora atualmente existam alguns critérios mais rígidos para a inserção de informações. Mesmo assim, a revista "VEJA" realizou um teste: propositalmente, modificou o nome do então presidente do Brasil, o senhor Luís Inácio Lula da Silva, na ocasião de seu primeiro mandato. O erro foi deixado em um tópico sobre a biografia do então presidente e por várias semanas, nada foi feito. Nenhuma correção.

É claro que uma das coisas boas da rede é a possibilidade de qualquer pessoa mostrar seus talentos. Profissionais, artistas, enfim, qualquer um. Mas tudo isso funciona muito bem apenas quando o espectador possui algum senso crítico consolidado e o que ocorre hoje em dia, é a formação - completamente inapropriada - de tal senso a partir dos primeiros contatos com a web, os quais ocorrem imediatamente após ou até mesmo antes da apropriada alfabetização do indivíduo.

Antigamente, e aqui não se trata de nostalgia barata, mas sim apenas uma ilustração do ponto abordado por Eco, as publicações especializadas eram como tratados sagrados. Se alguém precisasse realizar uma pesquisa, ia a uma biblioteca ou à empoeirada estante de livros consultar a Mirador, a Barsa, a famosa Enciclopédia Britannica e outras tantas. Havia a mais absoluta convicção de acuidade total e indiscutível dos dados encontrados. Na época era assim: "Está na Barsa! Se está na Barsa, então está certo!". Evidentemente isso serviu - e ainda serve - para dados estáticos. Afinal de contas, a área continental em quilômetros quadrados do Brasil ou de qualquer outro lugar é de um tamanho só. Isso não vai mudar de forma alguma, pelo menos, enquanto ainda houver vida "inteligente" no planeta...

A Wiki é bem intencionada e evidentemente possui a dinâmica de modificação de conteúdo a qual jamais seria possível em uma enciclopédia tradicional - quando há alguém para atualizá-la em tempo hábil. Muito do que está lá realmente procede. Mas a maioria do conteúdo da internet orientado à propósitos acadêmicos atualmente precisa, querendo ou não, passar por um crivo. O problema, é que tal crivo não existe. A sua ausência se deve não devido ao fato de sua criação ser impossível. De fato, ele poderia ser implementado com relativa facilidade, a partir de um dos mecanismos educacionais mais antigos da humanidade: a escola. Assim como as enciclopédias, a escola deveria ser o bastião maior de conhecimento a partir do abastecimento de conteúdo, por parte de professores, a partir de fontes realmente seguras. Os dados de uma enciclopédia "real", são produzidos através de extensas pesquisas formalizadas por especialistas de praticamente todas as áreas e isso significa um crivo rigorosíssimo para só então uma informação ser divulgada. Assim, tem-se a certeza de que um determinado verbete é seguramente correto e assim pode ser divulgado com a mais absoluta segurança.

Infelizmente, temos o caminho inverso. A grande maioria dos professores se baseia nas informações encontradas em fontes duvidosas na internet para então executar a elaboração de seus planos de aula. É mais prático, é mais rápido, é mais objetivo e até mesmo mais divertido. Mas não é, de maneira alguma, confiável como deveria ser. Evidentemente, considero aqui o processo educativo "fast food", onde não há qualquer preocupação ideológica por parte dos mestres em analisar, discutir e comparar as informações encontradas na rede com o conhecimento adquirido através da formação acadêmica a qual proporcionou as apropriadas habilitações para a transmissão de conhecimentos. Convenhamos: não é assim que se processa na prática? Uma faculdade renomada é uma coisa. Uma escola pública de primeiro grau na área rural no interior do país é, lamentavelmente, outra. E sem maldade nenhuma, até mesmo as grandes e famosas universidades brasileiras caem em tentação aos processos mais... "ágeis" de formação de conteúdo para o corpo discente. Como em todos os segmentos, temos bons e péssimos profissionais. Também devemos relevar o fato de que a educação no Brasil nunca foi uma prioridade. E é bem difícil de acreditar que um dia poderá ser.

As referências creditadas a especialistas, como no caso de ensaios e reportagens devidamente assinadas, possuem o benefício da precisão de seus conteúdos. Resta ao internauta saber não só o que procurar mas como executar sua pesquisa. A famosa bibliografia, divulgada pelos professores para a realização de trabalhos, é imprescindível. Do contrário temos uma horda de alunos inocentemente convencidos sobre a certeza de estarem lançando mão de conhecimentos precisos, os quais são, na verdade, apenas suposições ou relatos de impressões daqueles com a crença de que dominam um determinado assunto em profusão. Isso funciona perfeitamente até certo ponto. Porém, na hora do vestibular ou de um concurso público, a surpresa pode ser bem desagradável.

Por outro lado, o culto ao amadorismo, embora seja defendido pela maioria dos intelectuais como algo extremamente nocivo em todas as áreas, tem lá seus pontos positivos quando aplicado ao entretenimento e no reconhecimento de determinados talentos. Se um vídeo no YouTube mostra um artista ou banda realizando um "cover" de uma canção consagrada, ponto para os autores do vídeo. Mas assim como nas questões acadêmicas, há de se ter o bom senso de perceber o valor da criação original e sua respectiva autoria. Há também o perigo, cada vez mais constante, de algo ser reconhecido como original quando não passa de uma peça requentada, divulgada sem escrúpulo nenhum, a partir de uma criação original realizada há muito tempo, mas fora do conhecimento prévio do internauta. Em palavras simples, alguém lança na web um arquivo de vídeo, de áudio, uma imagem, ou seja lá o que for de um trabalho originalmente realizado na década de 60 por um artista obscuro e se autoproclama o autor do material. Para quem acha que isso é difícil de acontecer, os exemplos são claros e envolvem até mesmo artistas brasileiros. Recentemente, um artista alemão copiou, descaradamente, a capa de um disco do Erasmo Carlos, lançado na década de 80. O episódio rendeu ações legais e confesso não saber o desfecho. Em todo caso, o plágio foi simplesmente de lascar e com a mais absoluta certeza, uma grande surpresa para aqueles com disposição de levantar a injusta bandeira de que "só brasileiro copia o que é feito lá fora". Veja a comparação das capas dos respectivos albuns no final do posting.

As dicas são simples: o amadorismo existe, está em alta e tem seu valor. Porém, o profissionalismo ainda é o ponto culminante a ser observado, em referêcias à qualquer segmento. Ao se deparar com uma determinada informação na web, a qual não se tem qualquer conhecimento prévio, é extremamente recomendável analisar, criticar, questionar, debater, comparar, discutir e obter um veredito no qual certamente vai denotar se o assunto pesquisado é realmente algo útil, ou se não passa de mais uma balela colocada só Deus sabe por quem e que certamente não tinha algo melhor para fazer no momento.

Há desocupados demais na web. E nem todos são bem intencionados...

E.Moraz.


Capa do álbum "Amar Pra Viver ou Morrer de Amor". Erasmo Carlos, 1982. Criação do ilustrador José Luiz Benício.














Capa do álbum "Circus Maximus".
Artista alemão Morlockk Dilemma,
Fevereiro de 2011.




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