quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pianos Elétricos: Instrumentos de Alma Própria

Tá aí uma coisa muito doida em alguns teclados, sintetizadores, pianos elétricos e afins: vários destes instrumentos foram concebidos com o objetivo de simular o som de tantos outros, em especial, instrumentos acústicos. Muitos conseguiram um baita sucesso comercial justamente por não terem conseguido - de jeito nenhum - tal façanha.

Apenas como breve exemplo: quando os pianos “Rhodes”, “Wurlitzer” e “RMI” foram inventados, a ideia se constituía em chegar o mais perto possível do som de um piano "de verdade", com a vantagem de proporcionar ao músico maior mobilidade e facilitar sensivelmente a sua vida. Afinal, carregar para cima e para baixo um piano elétrico, é bem mais fácil - e muito mais leve - do que um piano acústico.

Não passaram nem perto. O som de um “Rhodes” não tem absolutamente nada a ver com um piano acústico. “Wurlitzer” e “RMI”? Arrisco a dizer terem ficado mais distantes ainda. Mais leves para carregar, um pouco menos sujeitos a problemas técnicos quanto à afinação, mas o som... não... ainda não tinha sido daquela vez...

Claro, há mais um sem número de marcas e modelos, os quais de fato suprimiram a presença do piano acústico, mas nunca de maneira completamente satisfatória. O Yamaha CP-80 teve a mesma intenção. Porém sua presença era muito mais procurada devido às suas características proprietárias do que por sua condição de "simulador de piano acústico". Arrisco dizer sobre o nobre instrumento nunca ter sido colocado no palco, ou levado ao estúdio com essa intenção.

Para quem não está minimamente acostumado com as peculiaridades sobre assuntos relacionados à estas preciosidades, fica a dúvida: “Ué... então não são bons instrumentos”?

Muito pelo contrário. Na verdade é um paradoxo, pelo simples fato de não terem  atingido seus objetivos. Explica-se:

Pianos elétricos nos períodos das gêneses de suas respectivas criações jamais substituíram a sonoridade dos pianos acústicos, como já foi dito. Os modelos atuais fazem isso de maneira muito convincente, se não considerarmos o parecer dos puristas absolutos. Logo,  os antigos pianos, ao invés de proporcionarem maior mobilidade à músicos, bandas e seus pobres roadies, acabaram causando um efeito contrário: além do piano acústico, tinham ainda de levar o piano elétrico para o palco e para os estúdios. Doido isso, não é não? Os roadies do Steely Dan e de mais uma pá de gente, conhecem muito bem o caso...

Então, o que os fazem tão apreciados?

Em termos simples, é possível afirmar sobre terem criado uma linha sonora tão característica, a ponto de serem completamente indispensáveis em diversos segmentos musicais diferentes. Jazz, Funk, Rock Progressivo, Pop... em todos eles, o piano elétrico foi e ainda é um componente riquíssimo, não apenas em solos e acompanhamentos, mas também na criação de verdadeiras texturas sonoras, principalmente quando efeitos tradicionais como o "phaser" e o "chorus" são devidamente acoplados e ajustados.

Ouça praticamente qulquer canção do "Supertramp" em sua fase áurea - álbums como "Crime of the Century" e "Breakfast in America" e você terá um encontro delicioso com o famoso piano "Wurlitzer". O "RMI Electra Piano" era o preferido de Tony Banks do Genesis e usado em profusão na célebre obra "The Lamb Lies Down on Broadway", um disco obrigatório para todos os fanáticos pelo Rock Progressivo. Ainda no mesmo estilo, porém com várias pegadas jazzísticas e altamente psicodélicas em vários trabalhos, o "Soft Machine", banda do lendário baterista Robert Wyatt, fazia uso do instrumento de forma tão virtuosa quanto nomes como Herbie Hancock, Lonnie Liston Smith, Patrice Rushen e tantos outros. Um belo registro ao vivo da banda, onde o "Rhodes" realmente impera, no meio de sintetizadores de quilate similar, está no álbum "Alive and Well", gravado em Paris, e lançado pela "Harvest", em 1978.

Várias séries de modelos destas maravilhas foram lançadas. Cada um dos respectivos modelos com suas peculiaridades e, infelizmente, seus probleminhas técnicos. A afinação e a manutenção destes monstros sagrados sempre foram tarefas para técnicos especializados, e os exemplares construídos na época de ouro dos equipamentos analógicos e eletromecânicos que ainda estão em funcionamento, necessitam de atenção especial constante, de gente que realmente conhece o assunto e sabe muito bem o que está fazendo. São obras de arte na verdade. Por isso, precisam ser tratadas com o máximo de técnica, carinho, respeito e amor. Em nosso país, há pouquíssima gente com tais habilidades...

Hoje em dia, não é muito difícil conferir os sons de tais pianos em teclados relativamente acessíveis. Basta apertar um botão e voilá: tem-se a reprodução dos sons clássicos dos consagrados pianos elétricos. Evidentemente, assim como o "Rhodes", o "Wurlitzer", o "RMI" e outros não conseguiram chegar perto dos pianos acústicos, é praticamente impossível obter a mesma execução e sentir as mesmas peculiaridades nos instrumentos contemporâneos. Justiça seja feita: a proximidade sonora é notória e muito bem-vinda, verdade. Porém os instrumentos de alma própria continuarão a perpetuar - na mão dos técnicos, restauradores e músicos - características que são deles e deles somente. Um quadro de Picasso pode ser reproduzido. Mas não é um quadro de Picasso. Simples assim.

Perambulando por páginas da web, caí no blog "Not Enough Rhodes" e em um post especialmente interessante: "15 great rhodes albums". Lá estão algumas peças finíssimas, no sabor "Jazzy", onde o famoso "Fender Rhodes", bota mesmo para quebrar.

Cavucando um pouco os links, é possível baixar a maioria das obras. Cavucando de verdade, é possível baixar todos os álbums.

http://neverenoughrhodes.blogspot.com/2008/09/15-great-rhodes-albums.html

E cá entre nós... vale a pena.

E.Moraz.

3 comentários:

  1. Olá Eduardo Moraz, meu nome é Magela e moro aqui em Brasilia, Tenho um piano eletrico Wurlitzer A200, está precisando reparos, voce conhece alguém no Brasil que conserta? Um abraço, Magela.
    Meu email: mdemagela@yahoo.com.br

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Olá Magela.

      Enviei as informações para seu endereço de e-mail.

      Espero que possam te ajudar.

      Abraço.

      E.Moraz.

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