domingo, 22 de janeiro de 2012

Então Você Diz: "Sou Mais Inteligente e Educado Que a Maioria". Triste Fato: Você Está Certo

É apenas mais um dia. Você acorda, faz sua higiene, ocasionalmente toma o seu café da manhã e vai para o trabalho. Seja lá por onde for o seu trajeto e o método de transporte usado para o cumprimento de seu dever diário, todos os infortúnios protagonistas os quais causam as possíveis reflexões do título acima começam a pipocar na sua cabeça. Fatos conhecidos e lamentáveis.

Vejamos alguns deles:

No trânsito, a maioria das pessoas não respeita absolutamente nada. Você até tenta fazer as coisas do jeito certo, mas às vezes é impossível.

Situação bem comum: dependendo da cidade onde você está, ao tentar parar antes da faixa de pedestres, você corre o risco de sofrer uma colisão na traseira do seu carro. Em Goiânia, por exemplo, você tem de pensar rápido - muito rápido - e escolher entre 3 opções distintas:

1 - Você para antes da faixa, deixa o pedestre passar e em frações de segundo, pensando consigo mesmo, pede a Deus ou a seja lá quem for, para que a parte de trás de seu carro não seja alvejada durante o caminho do transeunte. Também pensa, numa velocidade indescritível, na possibilidade de que, se conseguir parar devidamente antes da faixa, uma possível colisão poderá arremessar seu carro contra o pobre pedestre durante sua aventura em atravessar a via.

2 - Você decide não parar antes da faixa e, evidentemente, se arrisca em cometer um atropelamento. Não haverá colisão traseira no seu carro, mas poderá matar ou aleijar alguém. Se o pedestre for esperto, ele vai continuar na posição dele e só voltará a tentar atravessar quando não tiver nenhum outro carro vindo em direção à faixa. Você conta com esse raciocínio por parte do transeunte. O problema, é que se tal linha de pensamento não ocorre...

3 - Você decide parar e então coloca a sua mão do lado de fora em uma tentativa quase desesperada e perigosa de mostrar ao motorista de trás que sim, decidiu por parar antes da faixa. Teve a grande sorte de nenhuma moto passar rente a seu membro superior esquerdo. Sua habilidade ao olhar no espelho retrovisor permitiu avaliar a possibilidade da façanha dar certo. Ao mesmo tempo, quase instintivamente, ligou o pisca-alerta em reforço na tentativa de mostrar que algo na frente de seu carro merece atenção e por consequência natural de todo o episódio, vai ter der parar o seu veículo. A esperança, é que o sujeito de trás entenda o que vai ser feito. Nesse caso, as possibilidades de alguém proferir palavras sórdidas contra a senhora sua mãe são de 99%. Mas tudo acaba bem. Você não vai se ofender com isso, vai?

Tem gente que se ofende. E, claro, coloca isso como argumento de justificativa para jamais tentar a terceira opção. Se por ventura tal manobra é executada e acaba ouvindo bobagens, estende a situação a ponto de iniciar uma confusão dos diabos. Não é segredo a ninguém até onde uma coisa dessas pode ir...

Tudo bem. Você não usa seu carro para ir ao trabalho e sim o transporte público de sua cidade. Vários são os motivos. Não é todo mundo com dinheiro suficiente para comprar um carro, não é mesmo? Há também a conveniência de não ter de enfrentar uma verdadeira cruzada para achar um estacionamento. Deixar o carro exposto enquanto se está no trabalho também tem lá seus riscos, isso sem mencionar os terríveis e intermináveis engarrafamentos. E os flanelinhas? Melhor nem chegar a pensar em sair de casa sem o soldo o qual estão acostumados a receber. Do contrário, o prejuízo pode ser maior e geralmente é. Também existem aqueles com a louvável preocupação com o meio ambiente: usam seus carros apenas quando nenhuma outra alternativa é viável. Como disse, são vários os motivos. Pena as alternativas também não serem suficientes para a resolução de todos os problemas relacionados e na verdade, em determinadas circunstâncias, as coisas podem ser até bem piores. Os "bikers" sabem muito bem disso. Bem aventurados os que podem trabalhar em casa ou podem chegar em seus devidos locais de suas jornadas laboriosas apenas com alguns passos.

Voltando a falar de Goiânia, o transporte público é uma verdadeira lástima. Nada funciona como deveria, simples assim. E em várias capitais e metrópoles regionais, o mesmo pode ser dito, com plena convicção.

Se todos os problemas inerentes à falta de educação da maioria dos indivíduos estivesem centralizados apenas nos exemplos citados, tudo estaria muito bom. Mas não ocorre desse jeito...

O call center de um banco ou instituição qualquer não te deixa em paz. Ironicamente, quando você precisa de tais serviços, não vai ser atendido como deveria. Pergunte-se: o que houve com a  lei sobre a limitação de tempo de espera pelo cliente quando este requer algum atendimento via telefone? A única lei a vir em nossa reflexão acaba sendo a famosíssima "Lei de Murphy". Essa sim, parece reger todo o planeta.

Uma seleção para determinado cargo diz entrar em contato com você em uma semana, para lhe informar sobre a necessidade ou não de seus serviços. Você espera, e espera e espera... e nenhum contato ocorre. Como ainda não foi chamado para qualquer entrevista, resolve candidatar-se em outro lugar. Caso as coisas ocorram de maneira satisfatória, uma péssima impressão será causada no departamento de RH da tentativa anterior, mesmo se tiverem ligado para você 3 meses depois.

Alguém de uma empresa deveria lhe fornecer uma informação sobre algo. Afinal, ao menos na propaganda, tal indivíduo deve ter sido treinado para isso. Mas não lhe diz absolutamente nada. Pelo menos, nada coerente com seu desejo e necessidade de saber. Você ainda acredita nas avaliações de atendimento? Na possibilidade delas providenciarem alguma melhoria no futuro? Esqueça. Nem perca seu tempo em avaliar.

Determinadas empresas lhe oferecem garantias sobre seus produtos, no entanato, sem uma verdadeira cruzada épica através das redes sociais, PROCON, e muitas vezes na justiça, o problema não é resolvido. Se for, levará um bom tempo. E você continuará esperando, como sempre.

Mas nada disso é o pior. As verdadeiras lástimas são quando constatamos a burrice e a falta de educação generalizadas em episódios comuns no cotidiano. O pior é quando há prazer em gente tacanha desrespeitar o direito do semelhante, como se fosse algo certo a fazer. É um fator de cultura já enraizado na grande maioria, de acordo com a simples "filosofia" do "malandro é malandro e mané é mané".

Coisas que já lhe aconteceram, caso contrário, ainda vão, lamentavelmente acontecer:

Ao entrar em um elevador ou em um recinto qualquer, você diz "bom dia" ou "boa tarde", ou "boa noite" e não recebe qualquer resposta. No máximo alguém vai te olhar de cima para baixo, de baixo para cima e é isso aí. 

Alguém deixa cair um objeto qualquer bem na sua frente. Você, como uma pessoa educada, faz questão de resgatar o objeto do chão e entrega-lo a seu dono. Espera-se ouvir alguma exclamação de agradecimento, mas ao invés de um simples "obrigado!", o indivíduo te fita com uma expressão incólume de superioridade, como se fosse obrigação sua ter realizado a ação de lhe entregar o que foi parar no chão. Como se não bastasse, o tal objeto é arrancado de sua mão, numa ação de grosseria inenarrável.

Pessoas e seus celulares. Essas chegam a ser até engraçadas, dependendo de nosso humor e de nossa paciência. Começam a falar alto a ponto de pensarmos: "Será mesmo necessário usar um celular? Numa altura de voz dessas, o interlocutor do diálogo é capaz de ouvir de qualquer maneira, não importa a distância". Não escolhem hora nem lugar. Tocou/vibrou? O berreiro começa. Você não tem nada a ver com aquilo e por isso é bom ficar calado e nem sequer pense em fazer cara feia. Pode dar problema.

Você reservou uma mesa em determinado estabelecimento. Ao chegar, ela já está ocupada. Leva o caso para a recepção, gerência ou qualquer outra coisa com aparente autoridade para resolução da situação. Sorte sua se tudo for resolvido a contento. Geralmente, espera-se. E espera-se muito.

Ao realizar um pedido em um restaurante, leva-se cerca de uma hora ou mais para tudo chegar. Nesse caso a situação é clássica: comida fria ou insossa e bebidas quentes. Ao chegar em casa, depois de ter reclamado in loco e ter obtido uma solução apenas parcialmente satisfatória, você envia uma mensagem para a gerência do restaurante relatando o episódio com detalhes. Afinal, não é de seu desejo algo assim acontecendo novamente, seja lá com quem for. Além do mais, é natural pensar estar prestando um favor ao lugar, principalmente quando a falta é algo fácil de ser corrigida. Surpresa: você recebe uma resposta com um pedido de desculpas e um convite formal para voltar ao estabelecimento e ser atendido sem qualquer ônus, tudo para amenizar a péssima impressão. Após aceitar o convite, na hora de se retirar do lugar, você informa todo o ocorrido - mais uma vez - e ouve algo próximo a "Desculpe, mas eu não fui informado sobre nada disso. O senhor terá de pagar a conta".

Seu vizinho de cima é uma monstruosidade no sentido de ter gerado 3 frutos diretos de um casamento e não deixa você nem sua família em paz. Não importa se é dia de semana. Não importa se é de madrugada. O barulho é intenso e sempre ocorre quando você e os seus estão tentando dormir. Você reclama com o vizinho, através de uma carta, mantendo a boa educação nas palavras. Sem resultado. Você reclama indo até seu apartamento, mantendo novamente, a boa educação. Sem resultado. Você reclama com o síndico, evidenciando o fato de ser um condômino exemplar, afinal, você nunca faz festas, paga suas taxas em dia, contribui para a coleta seletiva de lixo e nunca incomodou ninguém. Tudo dentro dos melhores padrões da boa educação. Sem resultado. Finalmente, você comunica a seu vizinho que está levando o caso para a justiça. E recebe uma ameaça de morte.

Ao parar em um posto de combustíveis você pergunta em alto e bom tom: "Vocês aceitam cartões de débito e crédito?" Recebe uma resposta positiva. Porém, para reforçar, ainda incrédulo, pergunta: "Estão passando os cartões?" Novamente recebe sinal de "joinha" do frentista. Quando o procedimento é terminado, alguém do posto grita: "Não tá passando cartão não!"

Sua equipe de trabalho está finalmente montada. Mesmo sem ser o chefe, alguém dela pergunta: "Quanto você vai ganhar? E Fulano? E Cicrano? Cicrano sabe quanto Fulano vai ganhar? Eles sabem quanto vou receber?"

Nada muito sério de fato quando coisas asssim acontecem vez ou outra. Porém o grande problema está no fato de episódios semelhantes estarem ocorrendo com uma frequência assustadora e isso, sem citar coisas bem piores. Sabemos as causas. Sabemos os motivos. E nada parece melhorar.

É bem pouco provável a possibilidade de alguém retaliar tais acontecimentos da forma como fez o personagem do filme "Falling Down" de 1993, estrelado por Michael Douglas e porcamente traduzido no Brasil como "Um Dia de Fúria". Não diria ser impossível, pois não é nada difícil, ainda mais no dias de hoje, ter a vontade de sair por aí com pequenos canhões fazendo justiça com as próprias mãos.

Difícil mesmo é não pensar na possibilidade quase certa de você de fato ser muito mais inteligente e educado que a maioria.

Por essas e outras, arrisco dizer:

Você está certo. Infelizmente.

E.Moraz.

UPDATE: Segunda-feira, 23 de Janeiro. Eu e meus colegas de trabalho fomos a uma padaria no break time da tarde. Meu chefe estava com fome. Perguntei ao rapaz que estava no comando da chapa, que tipo de sanduíche ele servia. "Pão francês com presunto e queijo ou com hamburger, presunto, queijo e ovo". Meu colega não pensou duas vezes e pediu o "modelo completo", mas perguntou se era hamburger bovino. O rapaz disse que sim. Ao sermos servidos, meu colega notou, depois da primeira dentada que o sanduíche dele estava "equipado" com hamburger de frango. Então seguiu-se o diálogo abaixo:

- "Hey... esse hamburger é de frango!"
- "É..."
- "Mas eu perguntei a você se era bovino!"
- "É... mas do outro acabou."
- "Acabou?!?"
- "É..."
- "E você não me fala nada?!?"
- "Posso tirar se você quiser"

Meu colega olhou pra mim e me perguntou:

- "Sobre o que mesmo se trata a sua última postagem em seu blog?"

E continuou comendo seu sanduíche. Sem dizer mais nada.

Um comentário:

  1. Olá meu amigo!

    Sua postagem expressa plenamente meus sentimentos sobre "os outros" e mais de uma vez pensei em explodir como o M. Douglas no filme que citou.

    Abraço!

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