domingo, 12 de fevereiro de 2012

Jethro Tull, Thick as a Brick 2 - O Que Houve Com Gerald Bostock?

Uma das características mais marcantes do rock progressivo foi a ideia de contar estórias em longas canções. Sempre foi uma diferenciação inteligente e muitas vezes até agressiva contra o pop e qualquer outro estilo em evidência no final dos anos 60 e início da década de 70.


Algumas bandas criaram verdadeiros personagens. Nada mais justo: se estórias poderiam ser contadas por alguém em um livro, o mesmo conceito poderia ser aplicado à música. Alguns acabaram não só encabeçando o elemento principal de vários álbuns de sucesso, mas também foram parar nas telas do cinema.


Não foi necessariamente o caso do Jethro Tull. A célebre obra “Thick as a Brick”, lançada no formato de álbum homônimo em Janeiro de 1972 nunca virou filme. Mas, ao contrário de tantos outros conceitos, está agora sendo perpetuada com a ajuda da internet. O Tull está preparando “Thick as a Brick 2”.


Vejamos primeiro alguns fatos da obra original:


O personagem: um garoto de 8 anos chamado “Gerald Bostock”, apelido “Little Milton”.


O lugar: interior da Inglaterra.


A estória: Em um concurso escolar, “Milton” consegue o primeiro lugar com um extenso poema denominado “Thick as a Brick” e instantaneamente vira celebridade. Porém, depois de uma breve análise do conteúdo do poema, é de consenso entre os juízes que o pequeno “Milton” apresenta sérios problemas psicológicos. O poema é desclassificado do concurso. A vencedora então passa a ser uma garota, chamada “Mary Whiteyard”, com o poema “He Died to Save The Little Children”, (Ele Morreu Para Salvar as Criancinhas). Algo muito mais leve e bem mais "aceitável" pela sociedade conservadora. Afinal de contas, "Thick as a Brick", além de significar "Grosso Como um Tijolo" em tradução ao pé da letra, também é uma expressão comumente utilizada para denominar um sujeito extremamente estúpido.


O álbum em seu formato original em vinil chama atenção imediatamente. Como naquela época as capas dos vinis eram grandes o suficiente para permitirem a criação de verdadeiras obras de arte, os integrantes do Tull imaginaram algo diferente: uma representação de um jornal local – na verdade, uma paródia dos tabloides – com a notícia sobre a vitória e posterior desclassificação do poema do garotinho.  E não para por aí: o “jornal” ainda apresenta demais notícias locais, previsão do tempo e possui até mesmo uma seção de classificados.


Confira algumas imagens da capa original de "Thick as a Brick":

"Front Cover" de "Thick as a Brick", com a notícia da desclassificação do poema de "Little Milton".
O obituário do jornal ficítio "St. Cleve Chronicle" inclui os nascimentos e casamentos da sociedade local.
 Notícias bizarras incluem uma coluna sobre um "Homem que conversava com animais". O crime também merece destaque: "Homem mascarado e armado assalta a agência de correios do vilarejo".
 A sociedade conservadora também se atenta aos relatos de uma freira ao voltar de sua viagem por vários cantos da europa. A proteção de animais fica por conta da "Liga Feminina dos Animais de Estimação".
Os destaques sobre a banda nas paradas norte-americanas ocupam a seção central do álbum.
Cartas de respostas de leitores do tablóide, novos planos escolares e destaque para uma união matrimonial de figuras de destaque da sociedade.
A estória de um ás da aviação britânica na Segunda Guerra Mundial e a seção de classificados.
O poema "Thick as a Brick" de "Little Milton", na íntegra: a letra da única canção de todo o álbum. Resenha do "Novo Álbum" do Tull.

















 
Testes, anúncios e erratas. O "St Cleve Chronicle", assim como toda a obra, foi de cunho fictício, embora vários fãs da banda acreditarem na possibilidade de toda a criação ter sido baseada em fatos reais.


















A última página do tablóide "St.Cleve Chronicle".




















Ah sim, claro, já ia me esquecendo... a versão nacional do álbum, assim como as capas de tantos outros LPs de várias outras bandas, foi especialmente mutilada para venda em território tupiniquim. Por aqui, o disco foi vendido em versão de capa dupla. E é isso aí...

40 anos depois, surgem as perguntas: "O que se passou com 'Little Milton'? Como ele vive?" Por enquanto, sabemos que "Gerald Bostock" ainda está vivo e nada alheio ao mundo moderno. Possui perfil no Facebook e no Twitter, e sua vida é o tema de "Thick As a Brick 2 - What Happened to Gerald Bostock?", a ser lançado em 2 de Abril pela EMI, junto com a turnê onde o líder do Tull, Ian Anderson leva a obra original na íntegra. "TAAB 2" deverá ser lançado em dois formatos: um CD com encarte de 8 páginas e em uma edição especial incluindo, além do CD, um DVD com o "making of" do álbum e entrevistas.

Para os fãs de carteirinha, é uma boa verificar as informações de Bostock em seus respectivos perfis. Embora não existam detalhes de como anda sua vida, algumas informações sobre a atual formação da banda, bem como o que o guitarrista original, Martin Barre anda fazendo, estão lá.

O site oficial da banda também traz um longo texto escrito por Ian Anderson sobre o novo projeto, e um trailer de TAAB 2, que você pode conferir aqui:






Aqui estão os links, respectivamente, para os perfis de Bostock no Facebook e no Twitter:


http://www.facebook.com/pages/Gerald-Bostock/305718789470676


https://twitter.com/taab2


O "St Cleve Chronicle" também ainda existe. Mas agora se chama "St Cleve.com" e sua URL é, evidentemente, http://www.stcleve.com/

Site oficial do Jethro Tull: http://www.jethrotull.com/ 

Jogada de marketing de uma banda em fim de carreira? Oportunismo de Anderson para perpetuar seus rendimentos em nome de uma obra revolucionária da época, mas não tão comentada nos dias de hoje?


Bem, de fato não importa. Deixando de lado o virtuosismo - afinal trata-se de uma grande banda - e a possibilidade da música de TAAB 2 ser nada mais do que a inserção de ornamentos em acordes de sons exaustivamente interpretados no passado, o novo álbum trará um certo frescor a uma forma de perpetuação de uma estória concebida quando não se tinha ideia de como seria o mundo nos dias de hoje, com computadores e a internet ditando as regras da sociedade. Pode até ser algo requentado. Mas com a mais absoluta certeza apresentará uma qualidade superior em comparação com a maioria do que rola por aí hoje em dia. 


Especula-se sobre a possibilidade deste ser o último trabalho do Tull. Se assim for, Ian Anderson e sua trupe - não importando quem faça parte do álbum e da turnê - estarão fechando um ciclo de trabalho executado maravilhosamente, com chave de ouro.


No entanto, espero, de coração, de que seja apenas o começo de uma nova fase. Os caras ainda estão vivos, estão bem e ainda tem muito para mostrar.


E.Moraz.

3 comentários:

  1. Faltou falar que o apelido do jovem é uma referência ao poeta inglês, John Milton, autor de "Paraíso Perdido."
    Esse formato de contar uma longa história em uma música não saiu da cabeça dos progressivos dos anos 1970. Aliás, é mais velha do que se pode imaginar. Os poemas homéricos e hesiódicos (c. 800 a.C) eram, na realidade, longas músicas em que se contavam a trajetória de heróis e deuses. Na idade média, vários bardos se dedicaram a cantar muitas outras histórias. Isso também aconteceu em óperas e sinfonias.
    O que você disse na verdade é o contrário: “se funcionou na música, porque não iria funcionar em um livro.”
    Abraço,
    André

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  2. TAAB2 é um bom CD, com músicas honestas mas longe de ser uma obra prima como foi Thick is a Brick, e mesmo tendo visto o DVD a história enfim, acho um pouco pretencioso voltar a um tema e obra de 1.972 já consagrado, seja lá qual for o motivo. TAAB2 já é confuso no artista, é um solo do Ian Anderson ? (Claro q é!)ou um JT diferente sem o Martin Barre ? Sou fã de carteirinha deles, tenho de tudo, mas desta vez vale a frase da obra de 1.976: Too Old to Rock´n Roll: Too young to die!

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    1. É, sou obrigado a concordar. Quando coloquei o post, eu ainda não tinha ouvido TAAB2. Mas agora, depois de ter ouvido, compartilho da opinião de que está bem aquém do quilate de Thick as a Brick. Ouvi-lo foi uma espécie de viagem no tempo executada numa máquina que não estava apropriadamente ajustada e "confusão" é uma excelente palavra: ao ouvir, QUASE deu para entrar no clima setentista, mas não colou. Também quase deu para começar a sentir um pouco de um entusiasmo semelhante às sensações do primeiro registro, mas só ficou no quase. Enfim, um bom disco. Mas, só isso.

      Muitíssimo obrigado em compartilhar sua opinião.
      Abraço
      E.Moraz.

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