quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Santa Maria: Quando Nossa Cultura Provoca Tragédias

Algumas pessoas que conheço torcem o nariz quando digo sobre uma porção de coisas acontecerem pelo fato de que somos um pseudo país de terceiro mundo. Do meu lado, eu torço o nariz quando simplesmente não entendo o motivo dessas mesmas pessoas defenderem coisas chamadas por elas mesmas de “valores nacionais”. Na verdade, quando ouço as tais duas palavras, imediatamente me lembro de uma das piores invenções dos que já estiverem no poder desse lugar. Me lembro da maldita “Reserva de Mercado”; mas isso é outra estória que já ficou na história. Pelo menos, de certa forma.

A pergunta, claro, é simples: O que tem a ver a nossa situação no “ranking” mundial com a tragédia em Santa Maria? A resposta curta é simples também: Tudo. A resposta longa, no entanto, é um pouco mais intrincada, apesar de ser facílima de entender.

Pare para pensar um instante e recorde-se dos lugares fechados onde você já foi. Não importa se você gosta de rock, jazz, sertanejo, gospel... seja lá o que for, você já esteve - inúmeras vezes - em lugares com péssimas condições de segurança. Talvez nem tenha notado, mas igrejas, bares, clubes, salões de festas, centros de convenções, inferninhos, infernões... a lista é grande. Podemos também considerar lugares abertos. Mas, não nos desviemos demais do contexto.

Continuemos. Vamos lá. Faça uma forcinha novamente e pergunte-se em quantos desses lugares você já viu sprinklers, saídas de emergência com barras anti-pânico, sistemas de luzes de emergência, extintores suficientes... de quebra, questione-se também o seguinte: em quantas ocasiões você já esteve em locais com a mais absoluta certeza de que a quantidade de gente era muito superior à capacidade do lugar? Talvez não tenha pensado um segundo sequer - e isso não é problema algum - em segurança, afinal o nível normal da paranóia de uma pessoa não paranóica, não permite a realização de indagações profundas sobre seja lá que aspecto for, principalmente quando se sai para se divertir; (alguns poucos exemplos de exceções são dentro de veículos e quando se está com pessoas que inspiram cuidados). Mas com a mais absoluta certeza sentiu uma fadiga de lascar e também realizou sobre alguma coisa estar bem errada ao reparar que, apesar dos não sei quantos aparelhos de ar condicionado, o calor no lugar estava, literalmente, típico dos infernos.

Não há exceções no pseudo país onde moramos. Uma assombrosa quantidade de lugares não apresenta a menor segurança, seja em Goiânia, Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, Oiapoque, Chuí, Santa Maria... Em todos esses lugares e, para falar a verdade, em todo território nacional, temos poucos estabelecimentos preparados para evacuações de emergência caso algum sinistro ocorra. Até parece que ninguém sabe disso...

Podemos então concluir que a “culpa” da coisa toda está no fato dos lugares não oferecerem segurança, certo? Eu realmente gostaria que fosse tão simples...

Antes de discutirmos sobre “culpa”, vamos falar um pouco de nossa hipocrisia. Ela muitas vezes é elemento de fator preponderante em qualquer coisa que se diga, faça e se imagine, principalmente, quando estamos falando de qualquer coisa que não seja sobre nós mesmos. É também inevitável. Como é que iríamos falar de segurança ou a falta de, em casas noturnas se algo assim não tivesse ocorrido? Como é que iríamos comentar sobre aspectos de relações humanas entre pais e filhos se não tivéssemos presenciado pela mídia um caso no qual supostamente um casal jogou a própria filha janela abaixo? Sim, estou falando do caso Nardoni, aquele caso que a (pseudo) nação toda já esqueceu, lembra?  Como é que discutiríamos a segurança em vôos espaciais, se os ônibus espaciais nos Estados Unidos não tivessem se arrebentado em terríveis explosões? Como falaríamos de segurança pública se um garoto não tivesse sido arrastado por um carro por não sei quantos quilômetros e que, agora, em sua honra, tem uma rua, avenida ou sei lá o que em seu nome no Rio de Janeiro? Tudo bem que não adianta nada, mas pelo menos comenta-se. A coisa toda da hipocrisia tem de ser dividida em diferentes classificações. Por hora, digamos que existe a hipocrisia per se. A outra, por enquanto, resume-se ao tipo automático, que ocorre não por culpa de ninguém, mas devido ao fato de certas ocorrências não serem regulares; (ainda bem). Outras tantas, são mais comuns do que se imagina.

Fica ao critério de quem quiser a questão da hipocrisia sobre o caso de Santa Maria virar matéria no “Fantástico” e agora todos virarem especialistas em segurança em ambientes de uma hora para outra. Fica também ao critério de quem quiser julgar (julgamentos são automáticos, você sabe disso) se esse “posting” está 100% ligado a uma série de coisas com nomes bacanas, como não só a “hipocrisia”, mas também “oportunismo”, “sensacionalismo” e assim por diante. Também fica a critério de quem for classificar tal conteúdo não como um tratado incólume. Pouco me importa se qualquer classificação seja correta ou não. Afinal de contas, se a igreja do bispo Edir Macedo categorizou o corrido em Santa Maria como uma sentença de morte, premeditada ao comportamento daqueles que estavam ali para diversão, realizando tal estapafúrdia declaração no tal do Facebook, (sim, eles fizeram isso), então é lógico pensar sobre a libertinagem de se colocar o assunto em qualquer patamar. Como todo mundo sabe, não haverá qualquer conseqüência para quem quer que seja, assim como não haverá qualquer problema para a maldita Igreja Universal do Reino de Deus, ou sei lá como aquela desgraçada porcaria se chama. Pouco importa - infelizmente e principalmente para essa “igreja” - o sentimento de pais, parentes, amigos, namorados e conhecidos das vítimas. Tal instituição, como tantas outras, não faz a menor ideia do que pode vir a ser o conceito de respeito.

Falemos então, finalmente, de culpa. Ela também não é única e exclusiva. Está diluída em um mar de aspectos tão vasto de detalhes, os quais somos impossibilitados de reportar um por um. Ela está enraizada na cultura, no fato de sermos o que somos, no mérito de jamais termos tido autonomia suficiente a ponto de nos permitir fazer as coisas direito. Não dá. É impossível. Motivo?

Imagine-se empreendedor, futuro dono de uma casa de espetáculos, ou seja lá como queira chamar. Rapidamente - (não há muito tempo hoje em dia para planejamentos muito detalhistas) - pense no que você precisa, atendo-se ao básico do básico:

- ponto;
- funcionários;
- som/luzes;
- isolamento acústico;
- fornecedores.

Ok. Agora, pensemos em como você vai burlar a receita para pagar menos impostos. Também considere como serão os esquemas de permuta ou então de suborno ao ECAD; e também considere a possibilidade de arquitetar algo para evitar problemas caso a banda que você esteja explorando seja formada por garotos sem a carteira da ordem dos músicos. Nota fiscal? Nem pensar. Apenas em situações irremediáveis. A vigilância sanitária não é implacável. Mas há também de se considerar o montante de propina designada para os fiscais caso comecem a encher o saco por causa da sujeira da pia da cozinha. “Solopan” é caro e ácido para remover manchas também não é nada barato. Higienização do ambiente como manda o figurino? Caramba, não estamos em Miami né chefe... Que se danem os filtros de ar condicionado. Ninguém liga para isso.

Funcionários. Carteira assinada é bobagem. O esquema é freelance. Treinamentozinho meia boca aqui e ali e está ótimo. Isso vale para garçons, garçonetes, seguranças, pessoal da limpeza, todo mundo. No caso dos seguranças, o treinamento é simples: quer sair? Então paga. Simples assim. Quer sair sem pagar? Pode até sair. Mas vai direto para o hospital. Esse pessoal precisa trabalhar. Não vai ser difícil fazer um bom acordo com todos eles. Claro, não vão dar o melhor que podem, pois não vão estar recebendo o justo, mas quem se importa? Alguém liga? Afinal você não tem concorrentes na cidade onde você está abrindo seu negócio, tem? De qualquer jeito tá bom. De qualquer jeito serve. Principalmente quando não se tem opções.

Beleza! Tudo certo. Sua casa abriu e é um sucesso. Não poderia ser diferente. Você fez tudo como manda o figurino, e quando estava fazendo as negociações, ninguém te chamou de otário, pois você não gastou um centavo sequer em algo no qual alguém poderia dizer: “Você vai mesmo investir nisso? Mas você é bobo, hein”?

“Mas também não dá. Não daria para investir em mais nada. Afinal de contas, qual é a casa noturna - no geral - pelas redondezas, equipadas com trocentos extintores? Luzes de balizamento em caso de falta de energia? Fala sério... se faltou energia, então faltou. Basta segurar a galera lá dentro, sem deixar ninguém sair e fica tudo bem. É só esperar a luz voltar. A entrada é a saída e a saída é a entrada, pois assim fica bem mais fácil de manter o olho na galera. Ninguém entra e ninguém sai sem a gente ver quem é. Quanto custa a recarga de extintores grandes? 20, 30 paus? Temos 6. 30 X 6 = 180. Com 100 você deixa o camarada da fiscalização pianinho. Economizou 80 contos, afinal de contas você não é nenhum Mané. Sprinklers? Como é que é?!? SPRINKLERS? Tá louco? Meu Deus, isso aqui não vai pegar fogo não! Sprinkler pra que!!! Isso aqui não é hotel, não é condomínio, não é cinema nem aeroporto e muito menos shopping center. Sabe quanto custa um sistema desses? Nosso salão terá capacidade para 600 pessoas. Mas assim, 600 pessoas na planta né? Em dia de festa bacana, a gente vende uns mil ingressos. Tá... mil e cem, vai. Com jeitinho, cabe tranquilo. Colocamos as promoters para divulgar a festa, não vai sair caro. Arruma meia dúzia de bundudas com o cabelo escorrido por chapinha, paga uma miséria para elas e tá ótimo. Fica meio apertado, mas é melhor para o povo se enroscar geral. Afinal de contas, hoje em dia, homem com homem, mulher com mulher... tanto faz. Não tem diferença mesmo... Papo de lotação máxima não rola né chefe... vai ter quem para ficar contando quantos entraram? Vão mandar alguém aqui para isso? Nem vai né? Nem vai mesmo. Os otários da banda estão aí. Tadinhos... vão passar parte da noite trabalhando por uma merreca e justamente eles são o motivo do lugar estar cheio. Mas pelo menos estão fazendo o que gostam. Deixa eles fazerem qualquer coisa lá no palco, vai. Deixa eles. Estão se divertindo. Eles se divertem quando trabalham. Que façam o que quiserem. Deixa... Ô... seguinte... os caras lá disseram que esse fim de semana o pessoal do juizado nem vai estar na cidade. Libera a passagem do pessoal de menor. Mas se for menor de 18, tem que pagar uns 15 contos a mais, esquece não, falei?”

Não. Eu não estou dizendo que é assim e que foi assim na “Kiss” em Santa Maria. Estou dizendo que é assim em praticamente qualquer lugar. Tem que ser assim. Não há como ser diferente. E como eu disse antes, não é simples culpar, pois tudo está diluído em nossa própria cultura. A cultura terceiro mundista. A cultura merrecolandesa, que nunca consegue aprender com seus próprios erros, nem com os enganos de ninguém, quem quer que seja. Sim, a cultura do jeitinho; não tem como de deixar tal clichê para trás.

É preciso burlar, mascarar, transgredir, passar por cima, sacanear, miguelar ou seja lá o que for, para tudo funcionar. Imagine se todo lugar fechado tivesse mesmo a estrutura de emergência conforme as recomendações das leis de segurança internacionais... apenas imagine. Temos uma ideia de quanto isso ia custar? Empreendedores, dos quais você provavelmente conhece alguns, teriam grana suficiente para tocarem seus negócios se cumprissem todas as tais “exigências”, digamos assim? Empreendedores precisam e querem lucro. O que vão fazer para isso, é por conta deles. Algumas coisas são necessárias. Outras nem tanto. Balancear a equação é difícil. Alguns conseguem. Outros não. A consequência, está aí para todo mundo ver. Ver, comentar, se entristecer e lamentar.

Não estamos na América do Norte, nem na Europa, tampouco na Oceania. Você sabe onde estamos e sabe que as coisas são assim. Pronto. Sem justificativas, sem explicações. As coisas são como são. E em tais quesitos, elas não vão mudar, a não ser para pior. Evidentemente, depois dessa triste tragédia, vai haver - talvez por um pouco mais de um ano no máximo - alguma discussão sobre... “mudanças na legislação”, “intensificação na fiscalização das normas de segurança” e falácias semelhantes. Vão dar alguma trela do tipo é “necessária a presença de uma barra anti-pânico nas portas”, e não vai ser difícil encontrar uma porta com um cabo de vassoura cruzando-a de fora a fora fazendo a vez da tal barra. Claro, no início, nos meses posteriores à tragédia, vai ser tudo lindo. Multas em diversos estabelecimentos; (alguns deles vão até mesmo ser fechados); autuações, fiscais com cara de gente séria, entrevistas na TV com dizeres do tipo: “...estamos trabalhando para a segurança do público, pois é nosso dever evitarmos que tragédias como a de Santa Maria se repitam”... tudo muito bem orquestrado. Por pouco mais de 365 dias esse vai ser o aspecto mais sórdido de toda a hipocrisia em cima do assunto: as coisas vão funcionar. Muitas pessoas vão ter até “medinho” de entrarem em certos estabelecimentos, principalmente as mulheres. Depois de uma desgraça, nesse lugar, as coisas funcionam. Ainda que por tempo limitado.

Futuro: Não, as coisas não vão voltar a ser como antes. As barras anti-pânico estarão lá, porém frouxas e prontas para cair em cima do pé de alguém. As luzes de emergência também vão estar em lugar de destaque, no melhor modelo: “hey, tá vendo aqui? Temos luzes de emergência em nosso estabelecimento”, mas não vão funcionar. Provavelmente as baterias estarão bichadas. Os extintores aparentemente estarão cheios. Mas só Deus sabe se as válvulas estarão em ordem. O material do isolamento acústico do lugar vai estar correto. Apenas acima e ao lado do palco. Bem... acima só já tá bom... se for preencher todo o lugar com isso, fica caro demais. As câmeras de segurança, pelo menos essas estarão em ordem. Claro que as gravações não vão aparecer se os proprietários do lugar se sentirem acuados com a possibilidade de serem processados se alguma grande meleca acontecer, mas isso é de praxe. Aliás, tudo é de praxe. Como eu disse, é assim que é. É assim que sempre foi. E assim sempre será.

Existe, principalmente nas redes sociais; (tudo gira em torno disso hoje em dia), algumas colocações sobre a postura de quem estava numa casa noturna de shows. É mais ou menos como a comunidade esotérica. Para esse povo, se alguma coisa saiu errada na sua vida, a culpa é sua. Não importa se é uma doença, uma fatalidade, ou se um pombo passou por cima de sua cabeça e nela deixou os dejetos de sua última refeição. Para eles a culpa é sua por não ter administrado “alguma coisa” do jeito certo. A culpa é sua. Única e exclusivamente sua. O mesmo anda acontecendo sobre as vítimas de Santa Maria. Algumas “pérolas” fáceis de encontrar em poucos minutos de navegação:

“O que esses meninos estavam fazendo num lugar daqueles, tarde da  noite?”
“Se estivessem em casa ou na igreja, isso nunca teria acontecido!”
“A ideia de diversão desses jovens é tão obscena que o diabo levou suas almas.”

Pessoalmente nunca vi tamanha falta de respeito em toda a minha vida. Mais de 300 jovens morrem e os fanáticos religiosos e pessoas com o Q.I. reduzido, com a mente facilmente manipulável por vermes que se alimentam apenas de dinheiro alheio se preocupam em coloca-los como culpados pelo próprio destino. Querem, a todo custo, tentar mostrar sobre os benefícios de seguirem sua doutrina de horrores. A mensagem é clara. “Se estes jovens a seguissem, isso jamais teria acontecido...” Sinceramente, me recuso em prosseguir com qualquer consideração à tamanha nojeira...

A fachada da boate Kiss em Santa Maria, é, agora, um triste retrato. É um instantâneo do ponto em que estávamos e que ainda estamos. É um expoente do descaso, dos infinitos esquemas para passar por cima do que seja, tudo com a justificativa de que tem que ser assim, pois quando as coisas são feitas do jeito certo, trazem prejuízo e não lucro.

Em nosso pseudo país, a nossa cultura sempre foi bizarra ao ponto de hoje, podermos dizer, seguramente, que o certo é errado e o errado é o certo.

Mesmo que a consequência disso seja a morte de mais de 300 jovens durante um show em uma casa noturna. Mesmo que toda a nossa cultura seja de um patamar tão pífio, que permita que coisas assim ainda ocorram no futuro.

Meu mais profundo desejo, que de alguma forma, seja lá como for, os pais, familiares e amigos desses jovens, consigam algum conforto e alento.

Se é que isso é possível.

Meus sentimentos. Agora e sempre.

E.Moraz.
 

UPDATE: Não é só a igreja do Edir Macedo a única em tentar golpear as famílias das vítimas. Um bom exemplo do mais fino de maldade, está nas técnicas de golpistas para obter dados bancários via internet...http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/01/29/golpistas-usam-tragedia-de-santa-maria-para-roubar-dados-bancarios-via-internet.htm

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